A questão da disciplina

A palavra “disciplina” já teve conotação positiva; relacionava-se com valor e era considerada uma aquisição indispensável para o desenvolvimento emocional das pessoas. Ultimamente, passou a ser associada a autoritarismo, a disciplina militar. Pais disciplinadores passaram a ser vistos como pessoas antiquadas, como quem não ama de verdade os filhos. Damos a certas palavras conotações de ordem moral e é comum não sabemos sequer o que elas realmente significam, como nesse caso.

“Disciplina” pode ser definida como a vitória da razão sobre as emoções. Não que devamos reprimir sempre as nossas emoções em nome da razão. As emoções são inerentes a nós. O ideal é que possamos cada vez mais aprender a lidar com elas, encontrando um equilíbrio adequado entre razões e emoções. Trata-se de uma conquista difícil, diretamente relacionada com a maturidade da pessoa. Muitas são as circunstâncias em que existe um antagonismo entre emoção e razão. Na criança vence a emoção, mas, com o crescimento, a razão deveria transformar-se em poder central das decisões. É uma pena que isso só ocorra a certo número de pessoas – fortes o suficiente para suportar a frustração relacionada com a renúncia.

Vamos a um exemplo esclarecedor que já foi usado por muitos autores. Quando, numa manhã fria e escura de inverno, o despertador toca, nos informando que é hora de levantar, passamos a viver um dos conflitos mais duros entre a razão – que nos lembra de nossos deveres – e a preguiça – emoção natural em nós e que se recusa à obediência. Das pessoas que se deixam vencer pela preguiça, pouco se pode esperar em termos de sucesso nas atividades relacionadas com o trabalho. Sabemos que este se distingue do lazer pelo caráter obrigatório, pelos compromissos que temos com outras pessoas e pelo rigor com que seremos julgados se não obtivermos resultados aceitáveis.

Se o compromisso estiver relacionado com o lazer, desde que não tenhamos combinado nada com ninguém, não levantar ofenderá “apenas” a nós mesmos, que nos avaliaremos como fracos. Não aprovaremos nossa conduta se tivermos faltado a um compromisso esportivo ou se tivermos perdido a hora para uma viagem de lazer. Isso nos fará mal, mas procuraremos nos enganar, dizendo que na próxima vez isso não vai acontecer. Se tivermos nos comprometido a acordar cedo para fazer algum tipo de ginástica e a preguiça nos vencer, não será nada bom para nossa autoestima, pois nos sentiremos “para baixo”. Poderemos fingir para os outros que estamos bem e que a cama estava uma delícia, mas não poderemos jamais enganar a nós mesmos; sabemos que fraquejamos e lamentaremos por isso.

Por outro lado, se o compromisso for com terceiros e envolver atividades profissionais importantes, os resultados objetivos serão catastróficos – além do prejuízo maior à autoestima. Caso um vendedor falte ao compromisso com seu cliente, talvez não seja perdoado e não tenha outra chance. O mesmo vale para o funcionário de uma empresa que sempre chega atrasado: acabará demitido, evidentemente. O médico que não comparecer aos compromissos com seus clientes será dispensado, e assim por diante. Além da ofensa à autoestima, esses profissionais sofrerão todo tipo de sanção objetiva, de modo que não terão dinheiro nem o respeito dos outros.

Inversamente, aqueles que se reconhecem capazes de ter uma razão vencedora, que domine as emoções em geral, se tornam cada vez mais fortes, à medida que acumulam sucessos nas disputas que travam com eles mesmos.  E acabam por desenvolver um novo tipo de prazer, dos mais importantes para a nossa psicologia: o prazer de ser forte o suficiente para renunciar a um prazer imediato em favor de uma recompensa maior que virá em algum momento do futuro. Assim, a renúncia aos prazeres imediatos se transforma em um novo e maior tipo de prazer, o prazer da renúncia. Quem quiser dar certo no jogo da vida terá de se desenvolver até chegar a esse ponto de maturidade interior. Essas pessoas são capazes de dirigir a própria vida, pois deixam de ser escravas das emoções.

É preciso cautela, pois, à medida que a renúncia se transforma em fonte de prazer, ela pode passar a ser buscada de modo ativo e prejudicial. Orgulhar-se de ser capaz de fazer renúncias necessárias é coisa boa e ponderada. Entretanto, renúncias indevidas, buscadas apenas com o intuito de provocar a sensação de superioridade e de força extraordinária, são um excesso, algo que nos afasta do bom senso e já contém os sinais característicos dos vícios.

(Trecho do livro “Os sentidos da vida”, p. 81-84)

Compartilhe!