A Razão e os Processos de Mudança (I)

Insisto muito no fato de que precisamos estar sempre reformulando nossos pensamentos. Precisamos gostar de ouvir e de aprender, mais do que de ensinar. Esta condição é pré-requisito para termos uma vida criativa, para que idéias novas e interessantes possam nos ocorrer e para que elas se transformem em novas situações reais da vida. É evidente que o objetivo maior da nossa razão é o de nos ajudar a viver melhor. E todas as nossas mudanças nascem a partir do surgimento, em nossa mente, de novos pensamentos.

Os novos modos de pensar surgem da interação entre os pontos de vista que temos e as idéias derivadas da nossa capacidade de ver e de ouvir coisas diferentes.

Aprendemos com livros, filmes, versos dos poetas, amigos e vizinhos. Aprendemos com quem sabe mais do que nós e também com quem aparentemente não tem nada a ensinar. É uma questão de disposição, de abertura para compreender os outros, e aí as surpresas serão muitas e favoráveis. O outro sempre saberá algo que nos é de valia. Por isso, temos de evitar o sistema fechado de pensar só usando o que sabemos, condição que chamo de autismo intelectual.

Mas, para que consigamos nos modificar, basta mesmo apenas saber as causas das nossas limitações e compreendê-las? Sim, porque todos queremos atingir estágios de vida interior e prática que ainda nos escapam. Queremos vencer inibições, medos, ultrapassar nossas deficiências. Qual o peso do conhecimento no processo de evolução pessoal? Por que, tantas vezes, parece que conhecemos as causas de nossas posturas e não somos capazes de mudar?

A primeira coisa é sabermos se as hipóteses para explicar uma limitação que temos são mesmo verdadeiras. Uma das condições para acreditarmos em uma explicação sobre um fenômeno é perceber se ela nos ajuda a dar uma solução para o problema. Um exemplo: nos casos de mulheres sexualmente inibidas, incapazes de responder adequadamente às intimidades físicas, levantou-se a hipótese de que suas limitações seriam fruto de educação extremamente repressiva, imposta a estas mulheres. Para elas, sexo seria pecado, coisa feia e inadequada.

É uma hipótese lógica, pois correlacionar este instinto a sentimentos de culpa é, sem dúvida, um fator de inibição de sua expressão. Acontece que são vários os fatos que depõem contra esta hipótese: muitas moças são educadas segundo os mesmos padrões repressivos e não têm nenhum tipo de inibição sexual na vida adulta. Além disso, as moças que mais freqüentemente manifestam dificuldades orgásticas costumam ser criaturas egoístas, bastante agressivas e que não são muito voltadas para os direitos dos outros – atitude que é de se esperar de pessoas regidas pela culpa. E mais: com freqüência, elas são sexualmente livres com parceiros não-oficiais, condição na qual a repressão teria de ser maior ainda.

Logo, estamos diante de uma falsa hipótese para explicar a dificuldade sexual da mulher do nosso exemplo. Assim, este conceito não nos ajuda e ainda pode nos levar a uma linha de raciocínio totalmente errada. Portanto, insisto, devemos saber se as idéias que temos sobre uma situação são mesmo verdadeiras. Se forem, elas poderão – juntamente com outros processos que veremos nos próximos artigos – ajudar as pessoas a superar suas dificuldades.

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  • Edson Roveri

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