A Razão Humana e os Processos de Mudança (II)

Foram muitas as vezes que me perguntaram como é que se processam as mudanças no modo de ser das pessoas. Vem se tornando cada vez mais claro para todo mundo que não basta sabermos as causas determinantes de nossas condutas, como se poderia supor através de uma reflexão mais superficial acerca dos processos psicoterápicos. Porém, acredito piamente que tudo se inicia a partir deste ponto, ou seja, a partir de conseguirmos desenvolver um entendimento adequado das causas e também dos perpetuadores dos nossos comportamentos. Não basta conhecermos as causas iniciais; é necessário também sabermos se elas representam alguma coisa hoje; e, em caso negativo, que ovos fatores fazem aquele determinado comportamento continuar a existir. Uma pessoa pode começar a ingerir bebidas alcoólicas por timidez e continuar a fazê-lo em virtude de uma dependência química e psicológica que se estabeleceu depois.

Se retornarmos o exemplo da frigidez sexual, é preciso antes de tudo sabermos se as causas supostas — educação excessivamente repressiva — correspondem aos fatos. Se nos aprofundarmos um pouco mais, perceberemos que muitas são as mulheres com dificuldade para terem resposta sexual mesmo em relacionamentos afetivos muito bons. A hipótese explicativa mais provável é de que a inibição está relacionada com uma reação agressiva contra o parceiro, determinada pela inveja. Pessoas mais egoístas não raramente sentem muita inveja dos que são mais generosos. Se a mulher perceber que seu desinteresse sexual determina grande humilhação e sensações de rejeição em seu marido, poderá tender para perpetuar este tipo de reação justamente com o objetivo de atingir este resultado. Não é raro que saibamos quais as verdadeiras intenções justamente pelos efeitos que as atitudes provocam.
Assim, a primeira coisa é tentarmos encontrar hipóteses explicativas de uma determinada conduta que estejam mais de acordo com os fatos que observamos. Depois disto, cabe a pergunta: como é que se pode fazer para que uma pessoa assim inibida sexualmente se libere e se torne exuberante e ativa? A resposta é complexa e tentarei descrever os caminhos que se tem que percorrer. Desde já afirmo que de nada valem as proposições milagrosas que sugerem que a pessoa passe horas diante de um espelho falando coisas do tipo “eu me amo”. Quem tem inveja assim forte tem auto-estima baixa e isto não se cura com palavras. A cura não se dá nem por palavras e nem por decreto.

O primeiro passo é o desenvolvimento da honestidade intelectual, ou seja, a pessoa parar de se iludir e tratar de se relacionar com as verdadeiras motivações determinantes de suas condutas. E aqui já estamos diante das primeiras grandes dores, pois é evidente que aquele que quiser se guiar pela verdade terá que saber coisas nem sempre muito lisonjeiras acerca de si mesmo. E isto provoca sofrimento. Mas não faz mal porque os outros maiores ainda terão que acontecer. Não existe um caminho para o desenvolvimento pessoal que não passe por obstáculos deste tipo, que já são parte do próprio processo de evolução. Sim, porque poder tolerar razoavelmente bem tais tormentas nos faz mais forte de verdade. Ao se reconhecer portadora de inveja, a mulher do exemplo terá que admitir que se sente inferiorizada em relação ao companheiro e que se trata de uma condição verdadeira; isto é, que ela é, de fato, menos amadurecida, mais insegura e necessitada de usar sua sensualidade como arma para humilhá-lo e enfraquecê-lo. E mais, que faz deliberadamente, com o intuito de tentar impedir que ele a abandone, a troque por outra mais adequada aos seus anseios.

Não é à toa que são tão raras as mulheres que conseguem esta dramática reversão de conduta, pois a força que ela exige deriva de uma autocrítica extremamente amarga. Esta mulher deverá também ter a coragem de discutir a questão abertamente com seu parceiro que, de modo intuitivo, já sabe dos mecanismos envolvidos na conduta dela. Terá que se desarmar completamente. Terá que abrir completamente seu coração, condição irreversível. Sim, porque as coisas ditas têm um peso dramático. São diferentes das suposições. A atitude do homem será, como regra, de compreensão e de admiração — se isto não ocorrer, haverá uma tendência para a deteriorização do relacionamento. A admiração é uma resposta até certo ponto inesperada, uma vez que sempre achamos que nossas confidências irão provocar o desprezo e a rejeição daqueles que nos cercam, coisa que não costuma acontecer.
A partir daí se inicia um processo psíquico, determinado e guiado pela razão, através do qual a mulher em questão terá que buscar forças no sentido de conseguir exercer sua vontade. O termo vontade, hoje muito pouco usado, denomina uma força que nasce da razão. Desejo nasce do corpo, ao passo que vontade deriva da razão. tem a ver com disciplina e com coragem. Aliás, confessar nossas fraquezas exige sempre muita coragem. Em decorrência desta vontade de mudança, a pessoa passa a fazer tentativas de modos novos de ser e de se portar. Busca, com humildade, se colocar com sinceridade, busca conter suas tendências regressivas, busca os prazeres derivados das trocas sexuais, que, aos poucos, irão substituir os supostos prazeres derivados de se sentir dominando e rebaixando.

A mulher assim determinada pela vontade de mudança irá ousando novas posturas. Aos poucos poderá perceber que existem incríveis prazeres em se dar prazer a uma outra pessoa. Terá se iniciado num novo prazer, o de dar e não o de receber. Ao chegar a este ponto, as coisas se tornam mais simples, uma vez que os novos prazeres, por si mesmos, tendem a perpetuar as novas condutas. O difícil é chegar até este ponto, coisa que exige determinação e vigor que só podem nascer desta força racional que é a vontade.

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