A Razão Humana e Seus Perigos (I)

Nascemos com o cérebro pronto para ser usado; porém, vazio de informações. Sempre achei muito difícil pensar sobre estes assuntos e tenho certeza que o mesmo acontece com todo mundo. Ao mesmo tempo, o tema é fundamental, pois a razão é a parte da nossa vida interior com a qual convivemos o tempo todo. É o nosso computador particular, que nasce sem os programas; como não existem informações acumuladas, só conseguimos reagir através das sensações durante os primeiros tempos de vida. São respostas intuitivas que mostram que estamos muito sintonizados em nossas mães e no estado de alma delas. A serenidade das mães é fundamental para a tranqüilidade dos bebês, totalmente dependentes delas. O que falta nas crianças pequeninas é a capacidade de raciocinar através da lógica; fazendo correlações entre as coisas que as cercam , ser capaz de descrever seus movimentos e suas propriedades distintivas. Isto só nos chega com a aquisição da linguagem, durante o segundo ano de vida.

A linguagem é o sinal de que o programa lógico está se formando em nossa razão. Através deste programa podemos aprender a decifrar o mundo que nos cerca; as palavras também nos permitem uma boa utilização de memória, que, ao se ativar, permite um rápido colecionar de informações em nossa mente. A razão nos permitirá também um melhor contato com as outras pessoas, pois é pelas palavras que podemos transmitir de modo eficiente o que estamos vendo e sentindo. Ouviremos os outros e poderemos ter uma idéia mais clara do que está se passando no interior delas. Apesar de todos os perigos — por exemplo, a possibilidade de mentiras e também o fato de que a mesma palavra pode ter sentidos diferentes em cada cérebro — a linguagem é importante elemento de integração entre os humanos. E a integração é muito importante porque atenua a sensação de desamparo e solidão que sentimos desde o primeiro dia de nossas vidas. A comunicação, ao se dar, cria uma ponte que irá unir duas “ilhas” solitárias.

Acho que o importante é a compreensão de que a linguagem — e, com ela, a lógica que permite o uso da nossa razão — passa fazer parte de nossa vida emocional. Deixa de ser apenas um instrumento de reflexão e de comunicação para ter um significado de aconchego. Nos sentimos completos e felizes quando temos a impressão que nossos interlocutores nos entendem e concordam com nossos pontos de vista. O inverso também é verdadeiro: as divergências de opinião nos provocam a sensação de abandono, quando não de traição. Nos casais o fenômeno é bastante evidente, pois não são raros aqueles que interpretam a diferença de opinião — mesmo que em relação a temas banais — como indiscutível sinal de desamor. O processo é mais comum nos homens que, quando as mulheres divergem, dizem que elas “não estão mais vestindo a camisa deles”.

Ora, se podemos nos sentir assim abandonados por causa de pequenas divergências de opinião, o que dizer das reações que teremos quando algum pensador nos chega com concepções totalmente diferentes daquelas que estamos acostumados a ter? Galileu foi um cientista que nos chegou com a idéia de que a Terra não era o centro do Universo, numa época em que isto era uma verdade indiscutível. É importante percebemos a confusão que ele causou na mente das pessoas. Devem ter se sentido totalmente perdidas no espaço, elas que até então se sentiam estáveis, plantadas no centro de tudo. Além de ter mexido com a vaidade das pessoas — não ser mais parte do centro é um rebaixamento — pôs em dúvida todas as suas convicções; até mesmo a noção religiosa acerca da existência de Deus e do papel do homem no Cosmos pode ser contestada. É muita novidade, muita confusão. Não foi à toa que Galileu foi condenado à morte. Ele trazia muita insegurança com suas novas idéias. Elas desorganizavam os sistemas de valores e as regras de pensamento das pessoas acostumadas a pensar de modo como foram educadas.

O que eu estou querendo dizer é que as nossas idéias são, de uma certa forma, parte de nossos referenciais. Elas são a nossa pátria e as inovações nos obrigam ao desterro. Não é por acaso, pois, que as coisas novas nos provocam uma reação inicial tão negativa em nós. Nos sentimos ameaçados por elas e tendemos, sem grande crítica, a ser contrários a elas. Nossa primeira reação ao novo não é, pois, muito refletida; é uma atitude emocional, que determina em nós uma forte tendência conservadora. É preciso muita coragem para se opor a esta tendência, pois a postura adequada, que seria a de se expor de modo desarmado ao novo, provoca sensações emocionais dolorosas. Esta capacidade para lidar com as inseguranças que as novas idéias nos provocam talvez seja o ingrediente mais importante para que a pessoas possa ousar e tirar todo o proveito da aventura de viver.

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