Afinidades no casal são mesmo essenciais?

Por em 02/03/2015

A questão das diferenças ou afinidades de temperamento, caráter, gostos e interesses nos casais é de enorme relevância nos dias que correm. Não foi sempre assim. Aliás, há cerca de 100 anos, Freud (“Uma Introdução ao Narcisismo”) defendia a ideia de que o ideal eram elos complementares, em que um possuísse as propriedades inexistentes no outro; isso implicaria um fortalecimento do casal como um todo, criando condições ótimas para o melhor enfrentamento das adversidades da vida prática. Hoje falamos em “almas gêmeas”; antes se falava em “a tampa e a panela”. Por que tivemos que rever racionalmente esses critérios?

A importância da existência de afinidades entre os que se amam derivou das mudanças que ocorreram no planeta especialmente ao longo dos últimos 100 anos. Não é que Freud estava equivocado; ele apenas estava se referindo às circunstâncias de sua época e não a um padrão universal que valeria para sempre. Desde então, inúmeras e importantes conquistas humanas determinaram alterações dramáticas no habitat e também no nosso modo de viver. Cito as mais importantes.

O avanço tecnológico tem tornado a vida mais fácil: as máquinas domésticas melhoraram o trabalho cotidiano relacionado à confecção das refeições, lavagem de roupas, refrigeração etc. O avanço determinou também a diminuição da importância da força física para inúmeras tarefas, o que abriu o caminho para que as mulheres tivessem acesso às atividades profissionais fora de casa, muitas delas relacionadas com a prestação de serviços.

A pílula anticoncepcional abriu as portas para o início do fim das desigualdades sexuais e sociais entre homens e mulheres. O número de filhos em cada casal diminuiu dramaticamente e os casamentos passaram a acontecer muito mais tarde, agora por volta dos 30 anos de idade tanto para rapazes como para as moças.

As mudanças tecnológicas direcionadas para o lazer se multiplicaram de uma forma assombrosa nos últimos 50 anos. Assim, o cinema tem sido pródigo em produções de enorme diversidade; na televisão existem centenas de canais diferentes voltados para todo o tipo de interesse; na internet então, o número de possibilidades cresce para perto do infinito. Se a vida de antigamente era restrita a um espaço físico relativamente pequeno que poderia ser percorrido a pé ou a cavalo, hoje os carros e aviões nos transportam rapidamente para qualquer parte do mundo. Em uma frase: as possibilidades de entretenimento se multiplicaram de uma forma assombrosa em poucas décadas.

Talvez a variável mais marcante de todas tenha a ver com o papel da mulher: se antes ela deveria se comportar como uma “sombra”, como alguém que acompanhava o marido para onde ele quisesse ir – o que não era tão difícil, pois quase não se ia a lugar algum! – hoje elas são maioria nas universidades, estudam e trabalham tanto ou mais que os homens e, em alguns países, já ganham, em média, mais que eles. Assim, se antes se dançava grudado, o homem dava o tom e à mulher cabia apenas acompanhá-lo, hoje estamos diante de uma situação igualitária que se expressa até mesmo na dança, em que, desgrudados, cada um faz os passos que acha mais adequado.

Se no passado um comandava e o outro obedecia, fato que era tratado como natural e pouco relevante posto que o cotidiano era mesmo determinado pelo empenho recíproco de resolução das necessidades práticas, hoje são dois a pensar, a ter gostos e interesses, a dispor de mais tempo para o divertimento.

Se há 100 anos a vida média era de cerca de 50 anos, hoje vivemos 50% a mais! O número de horas de trabalho diminuiu, o tempo reservado para o lazer cresceu, o número de filhos diminuiu, os homens podem executar as tarefas domésticas com certa facilidade posto que as máquinas facilitaram muitas das atividades. Ainda mais uma variável relevante: a qualidade de vida das pessoas solteiras melhorou dramaticamente, de modo que a tolerância para relacionamentos frustrantes e desinteressantes só vem diminuindo.

Novo contexto, novas exigências e novos encaixes. Para que se possa conviver em harmonia é essencial que ambos tenham gostos e interesses bem parecidos. A capacidade de fazer concessões só tem diminuído, pois elas deixaram de ser essenciais. Sempre existirão diferenças e elas terão que ser respeitadas, o que determina uma maior independência de cada membro do casal. E as afinidades e interesses em comum têm que predominar tanto no plano das atividades lúdicas quanto, principalmente, no que diz respeito aos projetos de vida.

Foram tantas as mudanças e elas aconteceram em tão pouco tempo. Não espanta que a maior parte das pessoas ainda não tenha se adaptado a essa nova mentalidade. Espanta menos ainda que o encantamento amoroso não tenha acompanhado imediatamente esse novo momento. Mas caminhará inexoravelmente para lá.

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  • Angela Christina

    Depois de amadurecida como mulher, entendo que para que haja superações das diferenças entre as uniões de ou entre qualquer gênero é preciso que as afinidades sejam presentes. Não é a toa que os casamentos de longas datas se desfazem.

  • paulo sergio de lima

    Perfeitas colocações! Há pouco tempo, rompi um namoro de 6 meses, justamente porque não havia um predomínio de afinidades e interesses. As diferenças preponderavam e eram muito gritantes e, em muitas situações, não eram respeitadas por ambas as partes. Por ora, fiz a opção de permancer sozinho. Lembrei-me de mim e senti saudades.

  • Cristiane Lucchetti

    Meu nome é Cristiane Lucchetti, sou psicoterapeuta relacional e mantenho grupos online com os temas “Relacionamentos Amorosos” e “Felicidade e Autoconhecimento ”. São gratuitos, sem vínculo e você participa quando pode. Vários horários. Mais informações sobre o meu trabalho estão no meu site: http://www.nucleometafisica.com.br/fa%C3%A7a-o-amor-dar-certo/