Amor, Admiração e Vaidade

Por em 30/11/2015

Tenho descrito o amor como o sentimento que temos por aquela pessoa especial junto da qual nos sentimos em paz, em harmonia, aconchegados. O fenômeno, na fase adulta, reproduz o que experimentamos em relação à nossa mãe durante os primeiros tempos de vida; ela foi o nosso primeiro objeto do amor. Durante a vida adulta, escolhemos nossos parceiros segundo os valores que admiramos. Aqui começam os problemas, pois os critérios de admiração dependem de cada fase da vida e podem não se perpetuar; ou seja, aqueles que nos encantam aos 20 anos de idade podem não mais ser muito valorizados 15 ou 20 anos depois.

Quando mudam os critérios de admiração, muda o encantamento que sentimos por quem amávamos e muda também o tipo de pessoa que irá nos encantar daqui para a frente. Assim, não é nada fácil o amor perdurar ao longo de toda a vida, especialmente aqueles que se estabeleceram durante os primeiros anos da vida adulta, época em que todos ainda estão vivenciando profundas transformações em seus critérios e valores. Encantamentos mais tardios têm mais chance de serem duradouros. Vale registrar que basta um dos dois parceiros alterar seus critérios de admiração para que o relacionamento possa entrar em colapso; a única chance de longevidade dos relacionamentos em uma época como a nossa, em permanente mutação, é quando ambos evoluem em grande sintonia e se modificam segundo os mesmos valores.

Muitos jovens admiram aqueles que, sendo mais bonitos e populares, despertam o entusiasmo das outras pessoas. Buscam se aproximar sentimentalmente deles em função de admirá-los; porém, é importante perceber um componente de vaidade envolvido nesse processo: estar ao lado de alguém muito valorizado pelos outros membros do grupo é algo que faz com que aquela pessoa se sinta igualmente valorizada. Ou seja, o prestígio da pessoa aumenta – ou diminui – em função do parceiro ao qual se acopla sentimentalmente.

Fica claro que os critérios de admiração têm relação íntima com a vaidade, com o quanto a pessoa se sentirá elevada por ter sido a escolhida por aquele dado parceiro. Uma escolha sentimental composta por esse tipo de ingrediente tem enorme chance de ser equivocada, uma vez que os critérios usados são um tanto superficiais e dependentes da aprovação dos “outros”. A vaidade, esse prazer erótico de se destacar, chamar a atenção e atrair olhares de admiração, se intromete em todas as nossas ações e emoções; sua intromissão no fenômeno amoroso é intensa, intermediada pelos nossos critérios de escolha e costumam gerar mais equívocos do que acertos.

Melhor seria escolhermos alguém com quem nos damos bem, com quem, entre 4 paredes, nos sentimos felizes e realizados; as parcerias sentimentais servem antes de tudo para atenuar nosso desamparo; destacar-se por estar ao lado de uma pessoa valorizado aos olhos dos outros pode ser legal, mas como um ingrediente a mais e não como algo essencial. Esse deve ser o papel da vaidade em nossas vidas: algo que nos faz bem, mas que não deve ser preponderante nos processos de escolha.

A influência da vaidade no amor também se manifesta na intimidade de um casal apaixonado. Aqueles que se encontram, se envolvem e percebem que possuem enormes afinidades tanto de caráter, gostos, interesses e projetos de vida desenvolvem um elo de enorme intensidade. É tão forte que parece único, algo que ninguém experimentou antes, algo excepcional. E isso também é vaidade!

Os casais apaixonados, aqueles cujos critérios de admiração se voltaram para o que têm em comum – o que indica melhora da autoestima – costumam incensar o amor que vivem e também um ao outro: “você é a pessoa mais incrível que eu conheci”; “tenho você, de modo que não preciso de mais nada”; “eu sem você não sou ninguém”; “não existe amor maior que o nosso”… Compõe-se um ambiente em que ambos se elogiam com constância e regularidade; o discurso é repetitivo e beira o ridículo.

A gratificação da vaidade que acontece pela existência do elo amoroso intenso é tal que parece prescindir de qualquer outro tipo de reforço. O casal passa a se bastar e serem admirados pelos outros se torna irrelevante. Estão tão plenos, tanto de aconchego quanto de alimento para a vaidade, que podem pensar em abandonar suas vidas anteriores, amigos, trabalho, bens materiais. Uma casinha simples no meio do mato parece mais que suficiente para que possam viver livre e intensamente o amor que nutrem um pelo outro. Felizmente não costumam realizar esse sonho, condenado ao fracasso pela falta de outros estímulos também essenciais.

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