Darwin e a psicologia

Em algum momento dos anos 1980 começaram a surgir, nos USA, alguns textos que tentavam explicar algumas atitudes dos homens e das mulheres como derivadas de processos aprendidos – e consolidados geneticamente – ao longo da evolução das espécies. Nós, como o ponto final (ao menos até agora) do ciclo de mudanças que redundou na transformação dos mamíferos superiores em humanos, teríamos herdado procedimentos, praticados de forma automática, que têm tudo a ver com a preservação e perpetuação da nossa espécie. Tenderíamos a buscar explicações sociológicas ou psicológicas para procedimentos que seriam essencialmente biológicos, geneticamente determinados. Agiríamos desta forma porque não gostamos de nos reconhecer tão claramente mamíferos, tão próximos dos macacos, cachorros etc.

Estas hipóteses são interessantes e têm certa coerência lógica. Sensibilizaram um bom número de biólogos, antropólogos e até mesmo alguns psicólogos. Criaram-se novos ramos de atividade intelectual chamados de psicobiologia e sociobiologia. Vários livros foram escritos e muitos deles se tornaram bestsellers em vários países, inclusive no Brasil. Explicações desta ordem foram aplicadas especialmente às áreas mais dependentes dos nossos instintos, como seria o caso da sexualidade e também da agressividade. A sobrevivência dos mais fortes deu força a reflexões sóciopolíticas de caráter extremamente conservador, onde os mais dotados têm direito a tudo e os mais fracos não precisam sequer sobreviver. Sim, porque a morte deles seria até conveniente para o futuro da espécie, purificada de genes incompetentes.

Não quero entrar na polêmica questão da agressividade e suas correlações com o pensamento político. Não faz parte do foco principal das minhas atenções. Agora, a questão sexual está no centro das minhas reflexões e aí quero muito esclarecer algumas questões. A hipótese de que haveria uma espécie de lógica e bom senso evolucionista nos comportamentos poligâmicos dos homens – que assim garantiriam o maior número de mulheres fecundadas – e também no caráter seletivo das escolhas femininas – o que daria dignidade biológica ao desejo delas de serem fecundadas pelos mais fortes – é algo que merece uma atenção muito especial por parte dos espíritos mais atentos. Isso porque ela pode estar a serviço de dar certa “dignidade” a práticas moralmente muito duvidosas.

Gostaria inicialmente de reafirmar minha convicção de que o lógico e o verdadeiro não andam sempre juntos. A lógica é um sistema de pensamento e a verdade é o conjunto de pontos de vista nos quais cremos em um dado momento da nossa história. Aqui me declaro como um historicista, alguém que acredita que as interpretações dos fatos acontecem de forma diferente em cada fase da vida cultural dos homens. Estou com Nietzsche quando ele afirma que “não existem fatos e sim interpretações”. E mais, que isso já é uma interpretação! O que é lógico em um determinado momento deixa de sê-lo em outro: a Terra como o centro do Universo era constatação lógica até as reflexões de Copérnico e Galileu, quando ficou “óbvio” que a Terra não era o centro de nada.

O destino de todos os pontos de vista é serem superados por outros melhores e que só poderão se fazer conhecer a partir das mudanças objetivas e subjetivas que nós mesmos produzimos sobre nosso habitat. Assim, interpretar fatos que aconteceram a centenas de milhares de anos atrás (ou mais) com a mente atual é uma proeza temerária e sujeita a graves erros. Quem pode afirmar que, na selva primitiva, quando os homens tinham acesso sexual a todas as mulheres que lhe apetecessem, que eles estavam cientes de que o sexo estava a serviço da reprodução? A superioridade muscular lhes permitia a abordagem sem que dependessem da anuência das mulheres e o faziam movidos pelo desejo e nada mais. As mulheres não podiam escolher coisa alguma: a grande maioria dos homens mais fracos era fisicamente mais forte que elas e só isso é que valia. Assim penso eu, tentando me despojar do modo atual de pensarmos e me imaginar num mundo essencialmente animal. É claro que posso estar errado e que as coisas não tenham acontecido desta forma. Aliás, nada disso me surpreenderá, pois mesmo os mais sofisticados pensamentos que tenho tido terão o mesmo fim: serão ultrapassados e substituídos por outros que só aparecerão porque a história da nossa espécie continuará e as condições de vida serão diferentes.

A impressão que tenho é a de que tudo acontecia apenas em função do acaso, dos encontros e desencontros entre homens e mulheres. A partir do surgimento da vida social um pouco mais organizada é que podem ter começado a haver escolhas. Porém, aí já estamos no domínio da psicologia e da sociologia e não da biologia. A partir do início da vida em sociedade não existe mais biologia no sentido puro. Tudo passa a sofrer interferência das normas que estão em vigor naquele dado grupo e naquele dado momento. A partir daí, estamos no domínio da história mais do que da biologia. Ou, como dizia Ortega y Gasset (de uma forma radical, como era seu estilo): “o homem não tem natureza; o homem tem história”.

O assunto é complexo e merece muitas outras considerações. Por hora, gostaria de enfatizar os perigos das idéias que explicam tudo. Na verdade, as hipóteses evolucionistas consideram a existência de uma “lógica e sabedoria” supra-humana; seríamos, sem nos darmos conta, governados por ela. Trata-se, portanto, de mais uma maneira de pensar que toma por base uma verdade absoluta que se impõe a nós. A sabedoria divina desaparece e dá lugar à sabedoria da genética e da evolução. Não acho que a reflexão científica possa ser regida por verdades absolutas e atemporais. Esta é a forma de pensar das religiões – e o caráter atemporal está presente apenas nos religiosos chamados de fundamentalistas. Prefiro partir da premissa der que, no domínio das ciências, as verdades têm que ser relativas e estar em permanente evolução. As “verdades” é que estão em evolução!

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