Desejo e Proibição

Por em 19/01/2015

O desejo pode ser definido como uma “tensão” que impulsiona a pessoa na direção de algo ou de alguém. O mais típico deles é o desejo sexual. Um outro desejo corresponderia à curiosidade intelectual que impulsiona a criança, desde muito cedo, na direção de tentar entender o funcionamento de tudo que a cerca. Nosso corpo tem suas necessidades, que se distinguem dos desejos porque quando não satisfeitas são mortais; a não realização de um desejo gera “apenas” frustração. Às necessidades – comer, vestir-se, beber… – podem se sobrepor aos desejos: alimentar-se é necessidade, enquanto que comer um doce ou chocolate é desejo; vestir-se é necessário, mas aquela roupa especial e única é desejo.

Nós, os humanos, temos usado boa parte da nossa inteligência na direção produzir muitos objetos novos. Quando bem sucedidos, transformam-se rapidamente em “objetos do desejo” e que, diferentemente do sexo e da curiosidade, não tem nada de natural. Muitos desses objetos desejados tornam-se tão indispensáveis que passam a ser percebidos como necessários. Algo que não existia se torna desejável e depois essencial; o mais evidente exemplo disso é o telefone celular: hoje é difícil imaginar a vida sem ele!

Numa primeira fase, os novos objetos tendem a ser acessíveis a apenas um pequeno e seleto grupo de pessoas. Os preços altos das inovações interditam sua aquisição por parte da grande maioria da população. Muitos são os que desejam possuir um determinado bem, mas isso não se realiza por não terem os meios materiais para isso. Existe o desejo e também sua proibição, condição que reforça sobremaneira o desejo. Em um dado momento, o objeto se torna mais acessível e aqueles que não tinham acesso a ele vão em sua direção com sofreguidão. Logo que o desejo é saciado, ele se esvai – só se deseja aquilo que não se possui. Novos objetos surgem e o ciclo se repete da mesma maneira; de todo o modo, para que o consumo se perpetue é indispensável o surgimento de novos objetos de desejo que tenderão a se tornar necessários.

Um exemplo interessante dos mecanismos que envolvem os desejos tem a ver com o ato de comer. Quando uma pessoa está acima do peso e decide fazer uma dieta restritiva, ela passa a viver num contexto de privação. Ela fica proibida de ingerir tantos e tais alimentos, costumeiramente os mais calóricos e mais desejados por serem os mais saborosos. Ela fica livre para comer saladas, verduras de todo o tipo, carnes magras e pouca coisa a mais. Em princípio, não haveria problema algum, posto que o objetivo estético seria uma recompensa mais que à altura do sacrifício. Porém, a verdade é que a simples ideia de que não se pode comer aquela pizza no domingo ou o sorvete numa dada sobremesa acaba determinando um enorme aumento do desejo por essas guloseimas. A proibição parece aumentar ainda mais o desejo de ingerir essas comidas e não aquelas que estão liberadas.

O desejo sexual sempre esteve sujeito a dramáticas restrições, a regras estabelecidas com a finalidade de ordenar a vida em sociedade. Freud pensava na regulamentação sexual – e a frustração que ela gera – como pilastra essencial da vida em comum. Isso era verdade até há poucas décadas. Até os anos 1960 a exigência da virgindade das moças antes do casamento tinha por objetivo impedir gestações fora do contexto protetor da família constituída. A fidelidade conjugal, especialmente a feminina, tinha a finalidade de garantir a paternidade daquele que iria ser o provedor de toda a família; e assim por diante.

O sexo sempre esteve altamente reprimido, tanto pelas regras sociais como pelo pensamento moral e religioso. Esse desejo era visto como um perigoso inimigo das instituições e só estava autorizado a se manifestar entre os que haviam se casado. Não há dúvida de que se transformou no mais forte e importante desejo da humanidade ao longo dos séculos. Fica a dúvida: à medida que se afrouxam as normas que restringem a prática sexual entre pessoas solteiras, entre aquelas que não têm qualquer vínculo de compromisso, entre pessoas do mesmo sexo, será que o desejo continuará a ser vivenciado de uma forma assim intensa? Se for verdade que as proibições aumentam o desejo, o afrouxamento das restrições tenderá a diminuir o interesse e a importância do sexo para as gerações que virão!

Não deixa de ser intrigante acompanharmos o desenrolar dos desdobramentos das ações que nós mesmos geramos. Quem diria que o advento da pílula anticoncepcional e as enormes mudanças no papel social das mulheres que propiciaram um clima de liberdade sexual nunca antes imaginado possam vir a desembocar justamente na diminuição da importância desse desejo.

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  • Rosimeire Aprigio

    Dr. Flávio, achei muito interessante o seu texto. Parabéns!!