Educação Moral

Por em 18/01/2016

Educar, formar um novo membro de um determinado grupo social, é tarefa complexa e que envolve inúmeros aspectos. O primeiro, muito relevante, consiste na transmissão dos usos e costumes próprios daquela dada comunidade. A etapa seguinte consiste na instrução, ou seja, na transmissão do conhecimento acumulado pela humanidade ao longo dos milênios que antecederam à chegada daquele novo membro. Passar essa informação é tarefa penosa e difícil, especialmente nos tempos atuais em que as crianças estão habituadas a se relacionar com equipamentos eletrônicos bastante mais interessantes do que o que acontece numa sala de aula. Ali, até hoje os professores se valem do giz e de um quadro negro e tratam de passar às crianças e adolescentes um resumo dos capítulos anteriores da “novela da vida”. Isso para que possam acompanhar melhor o que acontecerá ao longo de suas vidas.

Junto com a transmissão de conhecimento e dos costumes, é importante papel da família a transferência dos valores éticos e morais aceitos e praticados por seus membros. Aceitos e praticados! Sim, porque não convém subestimar as crianças; elas sabem observar contradições entre o que se pede delas e o modo como os adultos se comportam. Esse é apenas o primeiro problema, já que nas próprias famílias costumam haver as contradições que se observam no meio social como um todo.

Os adultos que têm uma conduta moral coerente e consistente sabem muito bem que nem mesmo as regras mínimas, aquelas relacionadas com o respeito a direitos iguais das outras pessoas, são praticados pela maior parte dos que são mais bem-sucedidos social, profissional e financeiramente. Como agir com os filhos? Transmitir os valores mais consistentes e respeitosos, tornando-os menos competitivos? Ou aqueles que são praticados pelos que têm sucesso?

Minha posição é bastante clara: penso que devemos sim transmitir aos nossos filhos os valores morais nos quais acreditamos e praticamos. Pode ser que eles impliquem uma maior dificuldade de atingirem as melhores posições no mundo em que vivemos; porém, penso que são requisitos indispensáveis para a felicidade sentimental, para a constituição das boas e sólidas relações de amizade e para a boa autoestima. Agora, penso que é fundamental informar os jovens que nem todos seguem esses princípios, que existem os que “roubam” no jogo da vida; e mais, que eles devem ficar atentos, tomando os cuidados defensivos necessários para não serem por demais prejudicados por aqueles que agem assim. Educar com princípios sólidos, mas sem ingenuidade.

O segundo e mais importante aspecto da formação moral consiste em encontrarmos a maneira eficiente de transmitir os valores que respeitamos. E cabe a pergunta: é legítimo recompensar a criança quando ela age de acordo com o que esperamos dela? Cabe agir de forma similar à que é usada no processo de amestrar animais, qual seja, dar algum tipo de “docinho” cada vez que ela se comporta do modo que achamos adequado? Muitos pais, educadores e mesmo profissionais de psicologia simpatizam com esse tipo de atitude, chamada de condicionamento operante: usar reforços positivos para perpetuar comportamentos que consideramos adequados. Definitivamente não é esse o meu ponto de vista.

Penso que a criança que estuda e tira boas notas para ganhar um presente ansiado no fim do ano não estará sendo bem formado moralmente. Talvez tenha bons resultados nas provas; mas não sei se terá desenvolvido o genuíno gosto pelo aprendizado. Toda atitude adequada deve ser buscada mesmo sem recompensas externas. Antigamente se ensinava as crianças a agirem da maneira que os adultos consideravam certa e os pais diziam que agir assim não era “mais que obrigação”: estudar era visto como um privilégio e era obrigação da criança fazer bom uso dele. Ser honesto, leal, do bem… tudo isso fazia parte das obrigações. Não havia recompensa para atitudes adequadas e sim punição para as inadequadas. As crianças morriam de medo de perder o amor dos pais e esse era o grande instrumento usado com o objetivo de transmitir valores.

Se, no início, a criança se comportava conforme as normas pedidas por medo dessa represália sentimental, aos poucos desenvolviam genuíno prazer íntimo em ser uma pessoa digna e respeitada por seus princípios. Esses valores eram internalizados e, aos poucos, passavam a ser parte integrante de sua subjetividade. É fato que muitas famílias estimulavam demais os atos generosos, ultrapassando o ponto da justiça, o que é mau do ponto de vista moral. Penso que é hora de revermos esse aspecto, lutando contra os excessos geradores de culpa indevida. Acho que é chegada a hora de privilegiarmos os justos. Justos e desprovidos de ingenuidade!

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  • sophia

    os educadores e país devem ler este artigo, que para mim, foi como uma luz no fim do túnel: esclarecedor.
    obrigada.