Entrevista – Revista Época

Flávio Gikovate: “No futuro, o que irá determinar a orientação sexual de uma pessoa será seu envolvimento sentimental”

Em seu novo livro, que será lançado nesta segunda-feira (8), o psiquiatra propõe uma vida sexual sem cobranças e sem rótulos. Para ele, o importante é trazer o sexo para o domínio do amor, independentemente de qual gênero o parceiro seja.

Por: DANILO CASALETTI

Você é heterossexual? Ou homossexual? Considera-se bissexual? A sexualidade humana norteia-se por esses e outros “rótulos”. Definições que, para o médico psiquiatra Flávio Gikovate, podem interferir na vida sexual das pessoas, além de reforçar preconceitos. Em seu novo livro, Sexualidade sem fronteiras (MG Editora, 136 páginas, R$37,60), Gikovate propõe o fim desses termos (hétero, homo ou bi). O ideal, segundo ele, é falar apenas em sexualidade.

“As pessoas que vivem verdadeiramente de acordo com a sexualidade não têm compromisso com seu passado sexual e podem se movimentar dentro do espectro das possibilidades da sexualidade de modo livre e isento”, diz o psiquiatra. O que significa que, para Gikovate, as pessoas podem, ao longo da vida, relacionar-se com pessoas do sexo aposto ou do mesmo sexo, de acordo com seus desejos. Em entrevista a ÉPOCA, Gikovate fala sobre a teoria que apresenta em seu livro e afirma que nela pode estar a chave para o fim do preconceito e para a experiência do encantamento do amor.

ÉPOCA – No livro, o senhor propõe o fim de uma orientação sexual definitiva, o que, a seu ver, tornaria mais fácil uma pessoa transitar entre seus desejos, sem ser rotulada. Seria uma nova revolução sexual? Ela já está em curso?
Flávio Gikovate – São os primeiros movimentos ainda, mas essa revolução está em curso. O caminho é longo. Falta a liberdade de exercer o ato sexual de forma lúdica e totalmente desprovida de preocupação com a performance e o desejo de impressionar o parceiro. Falta também entender que o sexo é muito mais rico e gratificante quando vivenciado no contexto de uma relação amorosa de boa qualidade, fundada em afinidades de caráter, gostos e interesses. Uma relação mais parecida com a amizade. Sei que isso ainda é um tanto difícil para a maioria, pois, quando existem essas afinidades, muitas vezes o sexo se mostra menos exuberante. Trazer o sexo para o domínio do amor, desfazendo a tradicional aliança com a agressividade, é um dos grandes desafios da atualidade, independentemente de qual gênero seja o parceiro.

ÉPOCA – Todo mundo pode se sentir atraído por uma pessoa do mesmo sexo ou desejar pessoas de ambos os sexos?
Gikovate – As pessoas que vivem verdadeiramente de acordo com a sexualidade não têm compromisso com seu passado sexual e podem se movimentar dentro do espectro das possibilidades da sexualidade de modo livre e isento de qualquer norma ou preconceito. Elas vão se fixar em um determinado território, tanto em função de suas convicções e deliberações racionais quanto em decorrência de outro impulso que, na prática, se sobrepõe ao erótico: o encantamento amoroso de ótima qualidade.

ÉPOCA – Haverá sempre uma escolha principal?
Gikovate – O sexo é um fenômeno pessoal, auto-erótico. Em suas manifestações mais tradicionalmente masculinas está associado à agressividade (até por razões de procriação). Não são raros os casos em que a escolha do parceiro se dá pela via do desejo sexual e aqueles que assim procederem tenderão a escolher em função dessa associação (heterossexuais norteados pelo desejo têm mais raiva das mulheres – e são amigos dos homens – enquanto que a maioria dos homossexuais tem mais raiva dos homens e são amigos das mulheres). No futuro, o que irá determinar a orientação sexual de uma pessoa será seu envolvimento sentimental. Será homossexual ou heterossexual, conforme a rota do amor. E isso poderá mudar quando se alterar o parceiro sentimental.

ÉPOCA – Há quem opte por sublimar o desejo por pessoas do mesmo sexo. Acha essa prática aconselhável?
Gikovate – Qualquer tipo de repressão é sempre desinteressante. A pessoa pode muito bem sentir todo tipo de desejo ou vontade de natureza erótica e ter sua prática determinada por suas convicções. Um indivíduo pode sentir vontade de frequentar um travesti, por exemplo, se excitar com essa ideia, se masturbar por meio dessa fantasia, e jamais colocá-la em prática. Não vejo problema algum nisso, posto que o sexo, quando não acoplado ao amor, é fenômeno essencialmente pessoal e as condutas são decididas por cada um.

ÉPOCA – Na sua proposta, como fica a questão do sentimento versus desejo? Qual a diferença entre gostar de uma pessoa do mesmo sexo e se relacionar sexualmente com uma pessoa do mesmo sexo?
Gikovate – Nesse processo de evolução, é fundamental separar amor de sexo, entender que o desejo (principalmente visual e masculino) é diferente de excitação (mais voltado para dentro, enquanto que o desejo é dirigido para fora: desejo de algo ou de alguém). As trocas de carícias que são próprias do clima lúdico e governadas pela excitação podem se dar independentemente do gênero do parceiro. Muitas pessoas têm práticas sexuais com parceiros de ambos os sexos – aliás, é curioso observar que a bissexualidade é um dos aspectos da sexualidade menos estudada – enquanto que o envolvimento sentimental acontece sempre com uma pessoa especial, independente do gênero.

ÉPOCA – No livro, o senhor diz que evoluímos rapidamente para um mundo com uma educação unissex. No entanto, continuamos a presenciar atos e manifestações preconceituosas ou homofóbicas. Como uma pessoa mais livre sexualmente deve lidar com isso?
Gikovate – É um comportamento próximo de como vivem as mulheres atualmente. Elas são mais livres para experimentar as trocas de carícias eróticas com outras mulheres sem que se sintam estigmatizadas, sem que coloquem em dúvida sua feminilidade. O meu livro é um discurso contra o preconceito em geral e, em particular, contra aqueles que dizem respeito à questão sexual. O mundo do futuro não deverá ser governado por eles. Heterossexuais poderão vir a ter parceiros sentimentais e sexuais do mesmo sexo e também homossexuais poderão vir a ter parceiros sentimentais e sexuais do sexo oposto.

ÉPOCA – Há religiões que prometem a “cura” para a homossexualidade. Existem, também, pais que buscam psicólogos ou psiquiatras em busca dessa “cura” para os filhos. O que o senhor pensa sobre isso?
Gikovate – Sou um médico com 46 anos de experiência clínica. Digo que, nesse assunto, como de resto em todos os outros temas da minha especialidade, o papel do terapeuta é o de ajudar aqueles que o procuram a realizar seus anseios e conseguir alcançar seus ideais. Assim, não se ajuda um indivíduo a realizar o sonho de seus pais. Só se trabalha com o tema da sexualidade quando é essa a vontade explícita e expressa do paciente. O ponto de vista da religião e das famílias não deve interferir nos atos médicos quando eles dizem respeito a pessoas que estão em pleno juízo. Assim, os projetos terapêuticos são construídos em comum acordo entre o médico e o paciente.

ÉPOCA – As religiões, de certa maneira, também influenciam na sexualidade das pessoas?
Gikovate – Não creio que interfiram mais do que o papel, bem conhecido, de exercerem uma postura repressora de toda prática sexual que não seja diretamente relacionada com o matrimônio e, em especial, a reprodução.

Fonte: Revista Época

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