FÓRUM: Sexo e Poder – as diferenças entre o Homem e a Mulher

O debate que estou iniciando tem como ponto de partida minhas observações a respeito da inveja que tantos homens sentem da condição feminina. Além das óbvias diferenças anatômicas – que, durante os anos da infância, podem dar uma idéia de superioridade para os meninos e provocar mesmo a inveja de algumas meninas –, tenho afirmado que existem também diferenças relacionadas com o modo como funcionamos. A mais marcante, que se manifesta já no surgimento da sexualidade adulta, diz respeito à importância da visão no despertar do desejo sexual masculino. Acredito que o desejo visual é intensíssimo nos rapazes e inexistente nas mulheres. Os moços têm o desejo despertado pelo simples fato de olhar as formas de inúmeros corpos femininos. Querem dar vazão ao desejo, ou seja, anseiam pelo contato dos seus corpos com o delas. Não se sentem igualmente desejados e experimentam uma enorme e inesperada sensação de frustração e de inferioridade. Costumam atribuir o insucesso a algumas de suas peculiaridades físicas – ao fato de serem baixos, gordos ou narigudos. Não interpretam a diferença como uma propriedade geral da nossa espécie e sim como uma incompetência pessoal.

É importante afirmar que esta diferença na fisiologia sexual corresponde a um ponto de vista que venho defendendo – sempre encontrando alguma oposição – desde 1980. São muitas as mulheres que afirmam sentir desejo visual de forma similar à que descrevi para os homens. Elas não acham que se trata apenas da apreciação da beleza masculina como um valor, mas acreditam que se sentem atraídas pelo corpo de alguns homens mesmo sem saber quem são. Para elas, outras mulheres não sentem o desejo de forma clara por causa das repressões relacionadas à cultura machista em que estamos mergulhados.

As moças, que foram desconsideradas pelos meninos durante os anos da infância, adquirem, de repente, uma importância enorme. Especialmente as mais belas e atraentes. Passam a sentir-se profundamente excitadas pelo fato de despertarem tamanho desejo nos homens, inclusive naqueles de mais idade. Esta excitação ao se perceberem desejadas é muito diferente de sentir desejo: este é uma sensação de inquietação que leva à ação, ao passo que aquele é uma inquietação interna. Esta foi a razão pela qual Freud falou em postura ativa masculina – equivalente à que existe em outros mamíferos machos que são ativados pelo olfato – e passividade feminina. E foi por causa disto que as feministas passaram a ter tanta raiva e revolta contra ele. Acho que muitas pessoas cometeram um engano, associando a palavra “atividade” à idéia de superioridade, ao passo que “passividade” foi entendido como inferioridade. Não é impossível que esta fosse a visão de Freud e de tantos outros homens de gênio dos tempos que terminaram nos anos 50.

O fato concreto é que nós, homens, registramos nosso papel ativo como sendo o de inferioridade: já sentimos desejo por certas mulheres que sequer sabem que existimos – e muito menos terão interesse em receber nossos agrados. Ficamos na mão delas. Os moços da minha geração viviam com pavor o momento de, no baile, ter de tirar uma moça para dançar: morríamos de medo de “levar uma tábua”, ou seja, de ouvir um “não”. A humilhação associada a esta rejeição é indescritível. Tínhamos de revidar, de modo que gostávamos muito de depreciá-las nos outros itens da vida: com os homens mais velhos aprendemos a dizer que as mulheres são burras, emocionais e desprovidas de raciocínio lógico, que tantas e tais coisas tidas como tolas são “coisas de mulher”… Tudo isto é indício de forte dor de cotovelo.

E as moças? Será que elas são conscientes do quanto sua sensualidade corresponde a um poder e que, se quiserem, farão um enorme estrago na auto-estima dos rapazes que as assediam? Ao se postarem por horas a fio diante do espelho, saberiam elas que estão estudando todos os seus ângulos e imaginando como irão impressionar melhor os olhos masculinos? Será que sentem prazer em imaginar os rapazes morrendo de desejo por elas e sendo recusados? Será que elas sentem remorso em humilhá-los ou se divertem ao fazer isso?

Uma das fantasias eróticas femininas mais comuns consiste em se imaginarem sendo observadas e desejadas por um grande número de homens. Isto as excita e dificilmente poderá deixar de ser percebido como um poder, como algo que as favorece. É legítimo pensarmos que os homens são portadores de um desejo sexual um tanto grosseiro e indiscriminado, que se dirige a um grande número de mulheres. As mulheres percebem que estão sendo desejadas e poderão ou não vir a se interessar por alguém dentre os que as estão cobiçando – ou, o que não é raro, por um outro que, justamente, não está dando sinais de desejo. Elas terão um interesse mais criterioso, condição na qual poderão conhecer melhor outras características dos homens antes de autorizar a aproximação de um deles. O privilégio da condição feminina neste aspecto me parece óbvio, uma vez que ter interesse é muito diferente de sentir desejo. Pode ser que elas usem a expressão “fulano é um tesão”, mas não estarão tão dependentes do impulso, nada racional, desencadeado pela congestão vascular no baixo ventre que leva os homens a dizer a mesma frase.

Se na infância a posse do pênis pode ter dado aos rapazes e moças a idéia de superioridade masculina, o surgimento do desejo visual masculino na puberdade inverte dramaticamente a situação, apesar do discurso não se inverter tanto. A superioridade sexual feminina determina uma grande inveja masculina, que traz consigo hostilidade e agressividade. Sexo e agressividade se associam de uma forma dramática, o que explica a existência dos “palavrões”: são palavras eróticas usadas com claro conteúdo agressivo. Os homens desejam as mulheres e as hostilizam. Muitas são as mulheres que também têm raiva e inveja dos homens e usam o poder sensual como arma para humilhá-los. Vivemos, pois, nossa sexualidade num contexto onde as diferenças entre os sexos definem um jogo de poder e grande hostilidade invejosa. Muitos podem gostar deste jogo, mas acredito que nele estão contidos ingredientes suficientes para que não faltem vítimas – e elas sairão profundamente magoadas e humilhadas.

Será verdade que os homens e as mulheres sentem inveja recíproca? Será verdade que o desejo visual só existe nos homens e que as mulheres se divertem mais do que se excitam quando assistem a um strip-tease ou olham fotos de homens nus? As mulheres se masturbam olhando fotos eróticas, do mesmo modo que os homens? Afinal de contas, o sexo está mais comprometido com o amor ou com o jogo de poder e as hostilidades que existem entre homens e mulheres?

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