Novos tempos, novos modos de escolha amorosa

Se é verdade, como dizia Platão, que o amor deriva da admiração e que a admiração depende dos critérios de valor que a pessoa adota e aprecia, existe um forte componente racional envolvido no processo amoroso. É assim que muitos autores pensam a respeito das razões que fazem com que os critérios de escolha dos parceiros variem de uma época para a outra.

Ao longo do século XIX, as escolhas sentimentais estavam diretamente relacionadas com a busca de alianças matrimoniais. As escolhas aconteciam no seio das famílias, o que significa que os jovens compartilhavam com os parentes próximos seus anseios e as decisões acerca dos compromissos que viriam a assumir. Os critérios de escolha respeitavam os valores culturais próprios da época: as alianças deveriam se dar entre pessoas de mesmo nível sociocultural e econômico, mesmas bases religiosas e com diferenças de idade adequada (os homens deveriam ser uns anos mais velhos).

Esses critérios eram aceitos pelos jovens como os mais razoáveis, de modo que o encantamento amoroso deles costumava estar de acordo com os anseios de seus parentes; e o mesmo tinha que acontecer nas famílias dos seus pretendentes. É claro que a beleza dos jovens, especialmente das moças, também contava. Porém, na época, beleza estava relacionada com “beleza interior”; sensualidade tinha a ver com vulgaridade e não era nada valorizada; fatores inespecíficos, relacionados com o modo de falar, sorrir, andar, textura da pele etc. certamente sempre fizeram parte dos ingredientes que influenciaram as escolhas.

Com a revolução industrial e a migração dos jovens para as grandes cidades, eles, longe de suas famílias, passaram a escolher mais livremente seus parceiros sentimentais. O número de possibilidades de escolha aumentou muito, o rigor na escolha por afinidades socioculturais e financeiras se afrouxou, a sensualidade foi ganhando novo peso e passou a ser um valor positivo. Isso aconteceu principalmente a partir do final da Primeira Grande Guerra, quando a indústria passou a produzir muitos bens de consumo e tornou-se necessário estimular as populações a consumi-los [Sendo o sexo um desejo natural, nada mais lógico do que acoplar o erótico aos novos objetos a serem desejados, estimulando sua venda.]. A beleza, especialmente feminina, deixou de ter relação direta com o interior e se aproximou do erótico e do sensual. Como um novo valor, passou a influenciar, e muito, as escolhas amorosas.

Compartilhe!