O ciúme retroativo

Quando duas pessoas iniciam um relacionamento de forma intensa, quando surge a forte tendência para a fusão romântica – e naqueles casos em que o casal resiste pouco a isso -, muito rapidamente despontam uma sensação de compromisso e um desejo de passarem todos os instantes juntos.

Nesse tipo de relacionamento, não existe ciúme sexual, uma vez que a confiança que se estabelece é muito firme e forte. Não há incertezas no que concerne ao futuro, a não ser aquelas vinculadas ao medo da perda da admiração, única condição sentida como ameaçadora ao amor.

Quanto ao aspecto possessivo, o ciúme tende a ser máximo. Assim, o casal apaixonado costuma se afastar de todos os amigos e da maior parte dos parentes. Isso se dá porque se sentem inteiros em virtude da fusão romântica e também incomodados com a presença de qualquer criatura que tenha significação afetiva para o outro e vice-versa.

Até aí, nada de especial, embora esteja composta uma condição ideal para que possamos refletir mais profundamente sobre a presença de um componente “egoísta”, ainda que exercido a dois, no seio da fusão romântica. Eles começam a se incomodar profundamente com as pessoas que, no passado, tiveram algum tipo de importância afetiva para o parceiro.

Então, a situação se torna mais complicada, pois o ciúme nasce no meio de uma conversa ingênua, na qual um dos dois está narrando algum detalhe de sua história, contando de seus antigos amigos e namorados. De repente, o clima agradável de intimidade se interrompe, porque aquele que ouviu as confidências se cala e dá sinais claros de desagrado. Sentiu ciúme retroativo! Incomodou-se com algo que já passou, que não o ameaça em nada, e com o fato de o amado ter tido uma história que o antecedeu, de não ter saído do útero de sua mãe direto para seus braços. Ainda que fosse verdade, é possível que sentisse ciúme da mãe e do útero dela.

O amado se irrita e se entristece ao saber que o parceiro viveu momentos de forte emoção antes dele, tanto os de alegria como os de tristeza, mas principalmente os primeiros. Fica irado ao descobrir que o parceiro já amou intensamente outra pessoa, que teve fortes sensações eróticas como parte de suas vivências anteriores, que atingiu certas posições sociais, que viveu em determinados locais etc. Seguramente, gostaria que todos os momentos importantes de sua vida tivessem sido com ele compartilhados.

É evidente que esse tipo de manifestação do ciúme, extremamente comum quando se estabelecem relacionamentos intensos, que costumam ser os de maior afinidade, não tem relação com os fatos atuais, de modo que o sentimento deriva de nossa capacidade de imaginar.

É difícil explicar o porquê disso. Penso que essa situação extrema nos ajuda a entender o que acontece em todos os casos, ou seja, confirma a hipótese que venho defendendo de que todo amor adulto deriva e reproduz, de modo pouco original, as peculiaridades de nosso relacionamento inicial, infantil. Acredito que corresponda, em grau extremo, ao mesmo mecanismo possessivo presente em todos nós, em que o desejo é o de que o outro não exista a não ser como parte de nós. Todos os indícios de que o outro tem vida própria determinam a revolta e a irritação próprias do ciúme.

Esse componente do ciúme, existente nos melhores relacionamentos e entre pessoas essencialmente mais maduras, é o início de uma fértil caminhada para compreendermos o caráter regressivo do amor.

Livro: Ensaios sobre o Amor e a Solidão (p. 162-164)

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