O Conteúdo Essencial dos Meus Livros

Minha produção intelectual se iniciou em 1975, depois de cerca de 10 anos de trabalho como psicoterapeuta, lidando inicialmente com questões relativas às dificuldades sexuais e logo em seguida com temas relativos à vida conjugal. Na prática clínica sempre atendi todo o tipo de paciente, de modo que construí sólida experiência a respeito de todas as questões relativas à prática psiquiátrica. Nunca deixei de usar medicamentos psicotrópicos durante tratamentos psicoterápicos, de modo que o que hoje se prega venho fazendo desde 1967.

Como sempre tive um espírito um tanto rebelde e sempre fui avesso a me integrar em grupos que defendiam esse ou aquele ponto de vista, não fiz parte das sociedades de psicanálise e nem me aliei aos organicistas. Trabalhei por conta própria, o que foi fortemente facilitado pelo enorme sucesso que obtive em clínica particular desde os primeiros meses de trabalho. É claro que atribuo isso muito mais a dons inatos — relativos à capacidade de ajudar e de se fazer confiável — do que aos conhecimentos que tinha. Me senti reassegurado por esse bom resultado e, apesar de não tão bem preparado, agi com prudência, o que me impediu de cometer graves erros.

Aos poucos fui formando meus próprios juízos, tanto no campo da sexologia, que estava nascendo, como nas questões relacionadas com a paixão e as dificuldades conjugais que se tornavam cada vez mais freqüentes e explícitas. A complexa e conturbada evolução dos costumes a partir da segunda metade dos anos 1960 se apresentou diante dos meus olhos e, livre dos preconceitos que as doutrinas prontas nos impingem, pude olhar para tudo o que acontecia de uma forma peculiar, única. É claro que minha vida pessoal também esteve em reboliço, já que em psicologia somos os observadores e também nossos principais clientes.

O fato de ter sido feliz nas soluções que dei aos meus dilemas pessoais me ajudou muitíssimo. Acompanhei algumas outras poucas histórias de sucesso em novos relacionamentos afetivos, junto como inúmeros desastres determinados por motivos diversos. Meus textos de 1976 até 1982 são muito ricos em novas idéias, todas elas descritas de uma forma estabanada e apressada, como quem não quer perder a originalidade. Tinha medo de que outros autores pudessem produzir pensamentos similares. Hoje sei que isso não aconteceria, de modo que minha pressa era infundada. Independentemente desse fator, em minha mente jorravam novas idéias; algumas provocavam grande susto em mim e provavelmente nas outras pessoas.

Entre 1983 e 1990 vivi uma fase intermediária, com uma produção intelectual irregular e variada, lidando com temas correlatos, tais como obesidade, dependência psicológica de drogas — em especial, do cigarro — e completando algumas das minhas primeiras idéias. Em especial, publico um livro inteiramente dedicado à vaidade, relevante — segundo penso — mas que não esgota esse tema tão fundamental. Surge o primeiro texto mais maduro, o que trata da psicologia masculina.

Entre 1991 e 2001 rescrevo e complemento, agora de forma madura, meus textos anteriores. Trato os mesmos temas: liberdade, amor, sexo, valores morais, maturidade emocional, solidão, etc. As grandes questões da psicologia norma foram as que sempre me intrigaram. Minhas observações não tiveram origem na psicopatologia, como foi o caso da psicanálise. Meus pacientes, como grande regra, foram e são pessoas normais vivendo problemas existenciais e cotidianos.

Penso que, depois de passar por caminhos tumultuados e nos quais muitas vezes me vi desesperançado, acabei sendo capaz de sugerir soluções bastante interessantes para importantes questões da nossa existência, Elas passam por algumas premissas básicas que passarei a relatar, nem sempre respeitando a ordem que foi elaborada. Tentarei descrevê-las da forma mais sistemática e útil possível. Trata-se de resumo brevíssimo, síntese de 20 livros e 35 anos de trabalho obstinado.

1. Tudo começou quando fui me apercebendo que sexo e amor não são parte do mesmo impulso instintivo. Ao contrário, no mais das vezes, estão em oposição. Tal ponto de vista, defendido a partir de 1977, era uma afronta à postura psicanalítica que dominava o pensamento oficial. Defendiam — e defendem — a idéia de que amor e sexo fazem parte de nossa constituição libidinal, parte do Instinto de Vida. Reconheci no amor um impulso regressivo — não instintivo — relacionado com o desejo de retornar à paz e harmonia uterina. Uma espécie de ferida traumática relacionada com o nascimento. Desse ponto de vista, o amor substitui o instinto de Morte de Freud: ao invés de procurarmos a paz na morte, o que é apenas uma suposição, procuramos reencontrar a paz perdida, o paraíso perdido. O amor é o sentimento que temos por aquela pessoa cuja presença nos provoca a sensação de paz e harmonia necessária para atenuar nosso desamparo crônico. É evidente que o primeiro objeto do amor é nossa mãe. Ela é substituída várias vezes ao longo da vida. Poucos são os que prescindem de algum tipo de elo amoroso e conseguem lidar com a sensação de desamparo de uma forma serena e que prescinda de parceiros. O amor é, pois, fenômeno interpessoal, de modo que não reconheço a existência do amor por si mesmo. O conceito de narcisismo, nos meus textos, é abandonado. Reconheço que existe algo que sentimos por nós mesmos, mas o considero de natureza puramente sexual.

2. Desde o início, o amor está em oposição ao processo de constituição da individualidade: é como se a criança não quisesse se tornar independente, preferindo o colo da mãe. Ela tem que ser estimulada a construir sua independência, que é favorecida pelo desenvolvimento da razão, através da linguagem, e também pelo surgimento das manifestações sexuais autoeróticas — tudo isso a partir do segundo ano de vida. Uma vez constituída uma individualidade básica, ela se coloca em franca oposição ao anseio amoroso. O medo de perder a individualidade, o medo do sofrimento em caso de ruptura e o medo da felicidade definem, intimamente, um importante fator anti-amor. Assim, queremos um bom envolvimento amoroso e a ele nos opomos porque nos sentimos ameaçados pela fusão. Uma solução usual consiste no encantamento amoroso por pessoa bastante diferente: o encantamento aproxima, ao passo que as diferenças irritam e afastam.

3. O medo da felicidade ganha importância como fator anti-amor e também na vida como um todo: vivenciamos o paraíso e depois a ruptura derivada do nascimento. Parece que sempre que nos aproximamos de uma condição de harmonia experimentamos o pânico de que uma nova desgraça irá acontecer. O medo da felicidade é responsável por nossas tendências auto-destrutivas. Está relacionado com o fenômeno amoroso, assim como em Freud está relacionado com o instinto de Morte. A felicidade nos assusta também em outras áreas e se constitui em importante obstáculo interno à realização de todos os nossos projetos. É o nosso maior inimigo e se encontra dentro de nós.

4. No estudo das escolhas amorosas, me deparei com o fato de que a grande maioria dos casais é diferente quanto ao desenvolvimento emocional: um membro é mais intolerante a frustrações e contrariedades e pode ser definido como egoísta; o outro é tolerante até demais e costuma ser chamado de generoso. Esse tipo de aliança é descrito por E. Fromm: se estabelece entre o sádico — egoísta — e o masoquista — generoso. Aparentemente é o sádico que manda, grita e esbraveja. Na realidade o poder está mesmo é na mão do masoquista, ou seja, do generoso, o que dá mais que recebe e que pode parar de dar a qualquer momento. A grande maioria destas uniões termina por iniciativa do generoso — apesar das constantes ameaças do egoísta. O tema do desenvolvimento emocional e moral chegou a mim por esse caminho. Tornou-se muito importante e desenvolvi crescente postura crítica em relação à generosidade: o egoísmo só irá desaparecer quando desaparecer a generosidade. Ela passou a ser vista como uma forma menor de imaturidade emocional, onde a dependência e o medo de rejeição predominam sobre a razão. Ainda assim, trata-se de uma imaturidade. Na generosidade a culpa é indevida e opressiva. Um passo adiante na evolução emocional e moral define a forma de ser da pessoa justa: aquela que trata a si mesma e aos outros segundo um único padrão moral.

5. O justo é essencialmente maduro e bem constituído em sua individualidade. Pode muito bem ficar sozinho. Se optar por um relacionamento amoroso, não agirá nem com a imaturidade e dependência prática do egoísta — que costumava ser chamado de tipo narcisista, o que sempre aumentou a confusão a respeito do uso deste termo — e nem com a condescendência que deriva da dependência emocional do generoso. Não terá medo da fusão romântica porque o individualismo predomina sobre o amor. Acabará por estabelecer um novo tipo de aliança amorosa, mais parecida com a amizade — menos possessiva e nada dominadora — que tenho chamado de +amor, ou seja, mais do que amor. Trata-se da proposição de um novo tipo de romance adaptável aos novos tempos, igualitários.

6. Tudo indica que, hoje em dia, uma boa qualidade de vida implica em um desenvolvimento emocional — e concomitante evolução moral — muito maior do que nos era exigido até há poucas décadas. A vida comunitária, que ainda trazia muitos ranços da época dos clãs familiares, nos levava a ter uma falsa impressão de independência: de fato, nos tornávamos independentes de nossos pais para nos tornarmos dependentes de nossos novos parceiros amorosos. Mesmo aquelas pessoas que conseguiam grande evolução intelectual acabavam se perdendo em dependências emocionais e também em enganos graves de avaliação moral. Assim sendo, o individualismo — exercício de nossa individualidade — é parte desse importante desenvolvimento emocional e não deveria continuar a ser tratado como algo com conotação moral negativa. Individualismo não é egoísmo — o egoísta, dependente para coisas práticas, é tudo menos individualista! Individualismo é pleno desenvolvimento emocional, abertura para toda uma gama de possibilidades de existência que faz com que o homem possa efetivamente se tornar um ser livre. Esse é, pois, a face positiva da contemporaneidade, da cultura de massas que tende a nos fazer homogêneos até mesmo em nossos gostos e sonhos. A cultura de massas depende de avanços tecnológicos que, bem utilizados, nos fazem mais competentes para ficar melhor conosco, menos dependentes das outras pessoas. Vivemos sobre um fio de navalha: por um lado, a opressão de uma sociedade homogeneizadora; por outro, uma extraordinária possibilidade de liberdade para aqueles que se ocuparem de se desenvolver emocionalmente e não apenas se dedicarem às superficialidades estéticas que a época estimula.

OBSERVAÇÃO: DEPOIS DE TUDO FEITO, PARECE MUITO SIMPLES E FÁCIL. NA REALIDADE FORAM DÉCADAS DE TENSÃO E NÃO FORAM POUCOS OS IMPASSES: COMO RESOLVER, POR EXEMPLO, A QUESTÃO DA TENDÊNCIA FORTÍSSIMA PARA A FUSÃO ROMÂNTICA? AO RENUNCIARMOS A ISSO NÃO ESTARÍAMOS PERDENDO ALGO DE EMOCIONANTE E RICO? COMO IR CONTRA UMA FORMA DE SENTIR CONSAGRADA HÁ QUASE 200 ANOS? O INDIVIDUALISMO É MESMO UM AVANÇO EMOCIONAL? FORAM MOMENTOS DIFÍCEIS, MUITAS VEZES ENVOLVENDO A VIDA PESSOAL. FOI EXATAMENTE NESSE SETOR QUE PUDE AVANÇAR MAIS: TRATA-SE, É CLARO, DE AVANÇOS QUE DEPENDERAM DE UM TRABALHO REALIZADO A QUATRO MÃOS. A IDÉIA DE UM NOVO TIPO DE ROMANCE JÁ APARECE COMO ATRAENTE PARA A MAIORIA DAS PESSOAS MAS ELAS AINDA VÊEM ISSO COMO UMA HIPÓTESE TEÓRICA, LONGE DE SER FACTÍVEL. AO LONGO DE TODOS ESSES ANOS, A QUESTÃO SEXUAL SE APRESENTAVA COMO AINDA MAIS DIFÍCIL DE SER EQUACIONADA; AS POSSIBILIDADES DE UMA VIDA SEXUAL GRATIFICANTE NUM CONTEXTO AMOROSO SÓ PUDERAM FICAR MAIS CLARAS NOS ÚLTIMOS POUCOS ANOS.

7. O instinto sexual se manifesta, de modo claro, no fim do primeiro ano de vida, no momento em que a criança começa a se perceber como isolada da mãe ( nascimento psicológico ). A estimulação das chamadas zonas erógenas determina agradável sensação de desequilíbrio homeostático — talvez o único sentido como agradável. O fenômeno é auto-erótico, já que a estimulação é feita pela própria criança. Assim, o sexo é, ao menos no início — e penso que ao longo de toda a vida –, um fenômeno pessoal. Nisso esse instinto se distingue definitivamente do amor, que, desde o início, depende de um objeto externo. A separação entre sexo e amor destrói o conceito de narcisismo. O que sentimos em nós — e eventualmente por nós — é excitação sexual e não amor. Não devemos confundir auto-estima com amor por si mesmo. Auto-estima é um juízo e não um sentimento.

8. Nosso instinto sexual possui um outro ingrediente, que se chama VAIDADE, conceito que na psicanálise também ficou embutido na idéia de narcisismo, gerando mais confusão ainda. Trata-se de uma sensação de excitação que deriva de nos percebermos no centro das atenções, atraindo olhares de admiração ou de desejo. Essa manifestação depende da interferência da razão, já que temos que reconhecer que estamos despertando sentimentos positivos e não apenas estarmos sendo olhados. Suas manifestações iniciais se dão pelos 5-6 anos de idade. A vaidade ganha força e se transforma na peça fundamental da vida de quase todos nós a partir da puberdade. Essa manifestação de nossa sexualidade é muito complexa, já que se manifesta para além do corpo. A vaidade intelectual — o desejo de se destacar por essa área — pode ser extremamente nociva ao conhecimento.

9. Sendo a vaidade fenômeno assim pessoal, reforça a precária tendência inicial na direção da individualidade. Porém, por força da sua característica ligadas ao que é superficial, pode determinar um individualismo só de aparências e comprometido com o egoísmo. Esse risco, comum nas pessoas imaturas e que foram chamadas de narcisistas por Freud, pode ser responsável por confusões e dificuldades que temos em compreender como pensam e agem certas pessoas extrovertidas, alegres e, ao mesmo tempo, muito intolerantes a contrariedades e mal formadas moralmente. A vaidade, apesar de provocar prazer autoerótico, nos faz profundamente dependentes da aprovação externa, do maior número possível de pessoas — e que serão aquelas que nos olharão com admiração ou desejo. Trata-se de um processo pessoal de satisfação mas que nos faz frágil em relação aos padrões propostos pela sociedade na qual vivemos.

10. Um dos pontos mais marcantes dos meus textos está relacionado com o registro de diferenças biológicas — e não culturais — entre os sexos. Reconheço um desejo ativo e visual nos homens, ao passo que a mulher se excita ao perceber desejada ( não possui, pois, o desejo visual ). Essa diferença beneficia muito a mulher, pois sua vaidade se alimenta do desejo que desperta e dos olhares que atrai. Trata-se de uma boa surpresa que elas têm durante os anos da puberdade. A outra diferença implica na ausência de período refratário após o orgasmo nas mulheres. Aqui a vantagem é masculina, já que o homem experimenta sensação de saciedade e relaxamento após o coito. Muitas mulheres se sentem frustradas por não experimentarem igual relaxamento e atribuem isso a problemas pessoais ou a falhas no parceiro. A verdade é que a masturbação, por exemplo, é praticada com muito mais regularidade pelos homens do que pelas mulheres porque para elas sobra uma excitação residual que pode ser perturbadora. As que não se aborrecem — e até gostam — dessa excitação residual acabam sendo as que melhor vivem sua sexualidade.

11. Os homens registram o fato de não serem desejados do mesmo modo que desejam como enorme frustração. Se sentem inferiorizados e muitos desenvolvem grave hostilidade invejosa em relação às mulheres. A inveja masculina, anterior e mais importante que a feminina, é a responsável pelo machismo. Os homens afastaram as mulheres das posições chaves nas áreas públicas de atividade para ali reinarem e dali extraírem uma superioridade financeira e de posição social. Essa condição privilegiada sempre foi usada para neutralizar a superioridade sexual feminina. As mudanças que têm ocorrido nos últimos 40 anos vêm alterando esse equilíbrio entre o poder econômico masculino e o poder sensual feminino.

12. Muitas mulheres, por serem excluídas dos espaços de destaque nas atividades sociais, também desenvolvem hostilidade invejosa em relação aos homens. Como nossas sociedades tendem a privilegiar a condição masculina desde a infância, já que a eles estará reservado o destaque social, muitas meninas reconhecem na ausência do pênis a origem de seu destino inferior. A inveja do pênis é o termo que descreve a inveja feminina, que considero secundária à masculina uma vez que é a postura ressentida dos homens a que gera as diferenciações sociais entre os sexos e tenta excluir as mulheres das melhores posições. A inveja do pênis não é universal, podendo estar presente em cerca de 50% das mulheres. A inveja masculina é quase universal.

13. A inferioridade sexual masculina sempre foi negada pelos homens. Assim, constrói-se um modelo social no qual meninos e meninas são educados diferentemente, sendo que se exige mais e se dá mais privilégios aos meninos. O padrão viril é guerreiro e forte. O feminino é dócil, caseiro e ligado à reprodução. Meninos e meninas podem se revoltar contra o padrão que lhes é imposto apenas pelo fato de serem de um ou outro sexo. Isso, juntamente com outros ingredientes, pode influenciar dramaticamente a vida sexual adulta, predispondo para a rota homossexual, tratada como um desvio fácil, comum, gratificante mas não natural e muito menos inato.

14. Meninos e meninas crescem em campos antagônicos e, na puberdade, a tensão entre os sexos se agrava a partir do surgimento do desejo visual masculino. Moças ressentidas com o tratamento humilhante que receberam durante a infância poderão usar o poder sensual recém adquirido para humilhar intensa e deliberadamente os rapazes, que usarão todos os recursos para seduzi-las e depois rejeitá-las. Está criado um contexto terrível, de guerra óbvia entre os sexos, no qual a sexualidade está totalmente acoplada a manifestações de hostilidade agressiva e a jogos de poder. Não há nenhum indício de que, como regra, a sexualidade possa ser entendida como manifestação amorosa. O sexo e a agressividade constituem uma aliança difícil de ser rompida, determinando inclusive tendência à inexistência de desejo quando existe clima de ternura e companheirismo. É o que acontece entre amigos de sexo diferente ou mesmo em casais apaixonados, onde a inibição sexual é a regra.

15. A situação é igual na homossexualidade masculina: rapazes mais delicados crescem com raiva de seus pais e/ou colegas que podem, com as brincadeiras e cobranças usuais, tê-los humilhado. Desenvolvem desejo exatamente por aqueles que lhes despertam o ódio! Os homossexuais não têm nada contra as mulheres e talvez seja essa uma das razões da ausência de desejo. São amigos das mulheres e não as desejam. Odeiam os homens e os desejam. A situação heterossexual masculina não é diferente: os machões desejam sexualmente as mulheres mas as odeiam. Se divertem mesmo com os outros homens, dos quais são amigos, confidentes e com os quais se sentam nos bares para falar mal e desqualificar as mulheres de quem andam atrás o tempo todo. As mulheres mais femininas e sensuais são, como regra, as que mais ódio têm dos homens. Elas usam todo o poder sensual para humilhá-los, para provocá-los. Se vierem a ter intimidade sexual com eles, não se entregam de verdade e não raramente são anorgásmicas. Essas mulheres são as que se dão melhor com os homossexuais, já que, mesmo com outras mulheres, têm relações de rivalidade: competem com as mulheres e se dedicam a agredir e humilhar os homens. Dessa forma, não há clima para que a maioria das mulheres possa viver uma sexualidade livre e voltada para o prazer e não para o poder. Isso por si só já seria complicado por causa da inexistência do período refratário que, por assim dizer, subtrai o sentido da prática sexual “apenas” pelo prazer — nem sempre a excitação residual é sentida como prazerosa.

16. Sendo o sexo fortemente acoplado ao jogo de poder e a uma guerra sangrenta entre homens e mulheres, é fácil compreender que esse instinto reforça dramaticamente as já fortes tendências que temos de escolher mal nossos parceiros sentimentais: especialmente durante os anos da mocidade, escolhemos alguém por quem sentimos forte desejo, já que fomos ensinados a tomar isso como indício de encantamento amoroso. Rejeitamos parceiros adequados porque por eles não sentimos desejo — já que não sentimos raiva e sim ternura. Acabamos nos casando com alguém com quem iremos brigar, pelo resto da vida, as chamadas brigas “normais” dos casais. Escolhemos nossos amigos segundo critérios de afinidade e carinho, ao passo que nos encantamos sentimentalmente por pessoas que nos irritam e por quem sentimos raiva e desejo. O resultado não poderia ser outro que não uma vida em comum desastrosa. Não podemos deixar de lembrar com saudade os “bons tempos” em que os pais que se encarregavam de escolher os cônjuges para seus filhos!

17. Durante muitos anos não vi saída para esse dilema, para a inevitável tensão entre os sexos, para a perpetuação do jogo de poder entre eles. Não via solução também para as questões sociais, já que estou convencido de que o desarmamento psicológico, emocional e sexual, é précondição para que as pessoas tenham uma postura social menos massacrante daqueles menos favorecidos pelo destino — em todos os sentidos, desde a classe social em que nascem até suas peculiaridades genéticas. Apesar de reconhecer autonomia no fenômeno sociológico e político, os fatos nos tem mostrado o quanto o poder determina o surgimento de condutas nefastas até mesmo nos mais delicados revolucionários. Sem o desarmamento psicológico dos homens e das mulheres o planeta caminha para a destruição de uma forma que parece quase inexorável. O avanço na qualidade das relações amorosas entre os sexos já era um alento, mas me parecia fundamental desarmar a bomba da sexualidade. Isso parecia impossível, já que sempre considerei os fundamentos em que as diferenças se alicerçam como biológicos e, porisso mesmo, irreversíveis.

18. Eis que, de uns 10 anos para cá, surge um fato novo, e que derivou de atos espontâneos e despretensiosos exercidos por préadolescentes e adolescentes: O FICAR. As trocas de carícias praticadas de forma ingênua, provavelmente determinada por imitação do comportamento dos adultos, vem se estendendo ao longo dos anos da puberdade. Elas não envolvem compromisso e o jogo de poder é mínimo. Os meninos têm, pela primeira vez na história, a oportunidade de se aproximar fisicamente de meninas de mesma faixa etária e mesma condição social. No passado, as meninas de 13-14 anos só se interessavam por rapazes mais velhos. Usavam desde cedo o poder sensual para chegar a um compromisso — com alguém que valesse a pena. Isso sempre estimulou muito a competição entre os meninos e sua ambição. Essa competição acabaria inevitavelmente por agravar desigualdades sociais e econômicas, sendo que os mais bem sucedidos teriam acesso às mais belas. De repente, os meninos não se sentem tão rejeitados e se tornam muito mais calmos, talvez até mesmo um tanto acomodados demais. As moças, que agora não podem mais contar com as facilidades derivadas do poder sensual, tratam de se empenhar mais no crescimento pessoal e profissional. Torna-se possível imaginar o mundo tomando novas feições, desta vez mais homogeneizadoras das relações entre os sexos e também menos competitivo e virulento. É claro que o processo ainda é incipiente e que toda a pressão social a favor da beleza, perfeição física e sucesso a qualquer custo parece ir contra essa tendência que nasce lentamente a partir do cotidiano da nossa melhor juventude. O QUE FICOU CLARO, PARA MIM, É QUE EU TINHA SUBESTIMADO A ALMA HUMANA E SEUS PODERES. HAVIA, SEM PERCEBER, PRIVILEGIADO A BIOLOGIA. O FATO É QUE OS HOMENS PODEM SENTIR DESEJO VISUAL E NÃO SE SENTIREM OBRIGADOS A IR ATRÁS DAS MULHERES. O INVERSO TAMBÉM É VERDADEIRO: ELAS PODEM NÃO TER O DESEJO SEXUAL E PODEM AINDA ASSIM SE APROXIMAR DELES. O DESEJO VISUAL NÃO É UMA ORDEM, UM MANDAMENTO. É APENAS UMA PECULIARIDADE INATA QUE PODE OU NÃO SER ACATADA.

19. Se finalmente homens e mulheres se tornarem amigos, se puderem estabelecer relacionamentos baseados em ternura e companheirismo — o +amor que citei antes –, se a individualidade constituir-se de forma adequada e vier acompanhada da contrapartida moral, se a sexualidade se tornar livre da agressividade e puder, de fato e pela primeira vez, se acoplar a sentimentos positivos entre as pessoas, então poderemos voltar a sonhar com uma nova ordem política e social. Sem essa evolução psicológica, nada é possível.

OBSERVAÇÃO: CABE NOVAMENTE A RESSALVA DE QUE TUDO ISSO QUE PARECE FÁCIL DO PONTO DE VISTA INTELECTUAL AINDA NÃO É SEQUER HIPÓTESE NA MENTE DA MAIORIA DAS PESSOAS, CONTAMINADAS COM UMA CULTURA DE MASSA QUE PRESSIONA EXATAMENTE NO SENTIDO DA COMPETIÇÃO, DA FELICIDADE ARISTOCRÁTICA, AQUELA QUE SÓ PODERÁ SER ATINGIDA POR UM PEQUENO NÚMERO DE PESSOAS E QUE DESPERTARÁ A HOSTILIDADE INVEJOSA DA MAIORIA. MINHAS REFLEXÕES ABREM O CAMINHO PARA A FELICIDADE DEMOCRÁTICA, AQUELA BASEADA NO BEM ESTAR DE TODOS; OU, PELO MENOS, NUM BEM ESTAR QUE NÃO É EXCLUDENTE. OU SEJA, A FELICIDADE AMOROSA E SEXUAL DE UMA PESSOA NÃO IMPEDE O MESMO PARA TODAS AS OUTRAS. O MESMO VALE PARA A MATURIDADE EMOCIONAL, A EVOLUÇÃO MORAL E PARA OS PRAZERES RELATIVOS AO CONHECIMENTO E ÀS TROCAS INTELECTUAIS ENTRE AMIGOS.

NADA DISSO ME PARECE UTOPIA, SONHO IMPOSSÍVEL DE SER REALIZADO. SE FORMOS CAPAZES DE IMPEDIR A DESTRUIÇÃO DO PLANETA, É PARA LÁ QUE IREMOS CAMINHAR.

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  • elaine bertone

    Tudo o que eu precisava era ler esse texto! Muito elucidativo! Parabéns!