O Medo da Felicidade

Por em 13/06/2016

Venho tratando desse tema desde o final dos anos 1970 e ele surgiu em minha mente de uma forma estranha e surpreendente: de repente percebi que as pessoas, ao se apaixonarem, passavam a viver em estado de alarme, muitas vezes em pânico, como se algo de terrível estivesse para lhes acontecer.

Dormiam mal, perdiam o apetite, viviam obcecadas, pensando compulsivamente no que estava lhes acontecendo, querendo saber o tempo todo do amado e se ele ainda estava lá pronto para dar continuidade ao relacionamento.

Isso, em princípio, não fazia o menor sentido, pois afinal de contas se apaixonar era o anseio máximo daquelas pessoas que, depois, por motivos duvidosos, acabavam por se afastar de seus amados como que para se livrar desse estado de espírito próprio de quem vive num campo de batalha e pode ser alcançado por uma bomba a qualquer momento.

Percebi depois que a sensação de iminência de tragédia também se manifesta quando uma pessoa obtém um resultado excepcional em seu trabalho, em suas atividades esportivas, em seus ganhos financeiros… Ou seja, sempre que acontece alguma coisa muito boa, as pessoas passam a se sentir ameaçadas, como se elas aumentassem as chances do acontecimento de alguma desgraça.

Bem mais tarde constatei que esse mesmo tipo de sensação está na raiz de todo ritual supersticioso, presente em quase todos nós e tão antigo quanto as mais antigas civilizações: quando questionadas acerca de como estão indo as coisas, respondem que estão indo bem e imediatamente batem na madeira, como que se protegendo contra a inveja dos humanos e a ira dos deuses.

O medo da inveja, do “olho gordo”, estava presente no Egito antigo, em que as mulheres estéreis eram proibidas de olhar o ventre das que estavam grávidas, porque isso seria nocivo ao feto.

O medo da felicidade tem uma correlação direta com nossas tendências destrutivas: ao nos depararmos com a aflição que o sucesso provoca, tendemos a estragar uma parte do que conquistamos com a finalidade de preservar o principal: tendemos a raspar o paralama do carro novo para, com isso, diminuir a felicidade por ter podido adquiri-lo!

Muitos dos que tomam uma porção de pinga num bar despejam uma pequena parte – “para o santo” – e isso parece ser uma espécie de pagamento feito à divindade para que possam se deliciar com aquele prazer e bem-estar.

Freud, para tentar explicar nossas tendências agressivas e autodestrutivas acabou por formular a hipótese de que existe em nós uma “pulsão de morte”, um impulso permanente e definitivo que opera contra nós.

Penso que os mecanismos que sabotam nosso bem-estar são indiscutíveis, mas não concordo com a ideia de que possuímos uma força que nos impulsiona na direção da morte.

Tenho pensado cada vez mais no nascimento como um evento marcante e extremamente traumático, seguindo os passos de um psicanalista, discípulo e depois dissidente de Freud, que foi O. Rank. Para ele, o nascer é uma transição para pior, a “expulsão do paraíso” que correspondia à simbiose materno-fetal.

A ruptura dramática dessa condição de harmonia é vivenciada como um estado de pânico, manifesto claramente no rosto do que acaba de nascer. Assim, nosso primeiro registro cerebral é o da harmonia e o seguinte corresponde à dor da ruptura e o surgimento da sensação de desamparo que, de alguma forma, irá nos acompanhar por toda a vida.

Prefiro atribuir a essa vivência traumática, que se fixa em nossa mente de forma definitiva, a existência de tendências sabotadoras de nosso bem-estar e que nos acompanham por toda a vida.

Penso na formação de uma espécie de reflexo condicionado, de modo que, ao nos aproximarmos de um estado de harmonia e bem-estar semelhante ao que experimentamos no útero – e nada é mais parecido com isso do que o aconchego que acompanha um encontro amoroso de qualidade – imediatamente nos sentimos ameaçados, como se outra vez uma hecatombe viesse a nos atormentar; agora pensamos que a harmonia irá nos trazer a morte, destruindo nossa recém conquistada felicidade. Associamos a paz uterina à sua destruição, de modo que tememos o estar bem por temermos suas consequências nefastas.

A lógica dos processos psíquicos é peculiar, de modo que deve ser procurada de uma forma própria.

Se perguntarmos às pessoas que nunca se viram numa situação de grande felicidade se elas sentiriam medo, é claro que a maioria delas responderia negativamente. Porém, a verdade é que esse medo é universal e nunca conheci alguém que não o tivesse em alguma dose.

Aprender a conviver com ele e a não fugir das situações em que ele aparece corresponde a um ato de coragem adequado. Afinal de contas, apesar da aparência, felicidade não mata!

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  • Valéria Veiga

    Afinal de contas, apesar da aparência, felicidade não mata! Muito bom!

    • Angelina

      E por onde anda essa tal felicidade? Estou a procura dela a anos e n a vejo..

  • Andrea

    Pior é que às vezes dá medo mesmo… Eu ainda não tinha sentido isso tão aflorado como agora… embora já tenha ocorrido outras vezes…
    Ter o meu amor de volta à minha vida, me dá tanta alegria, tanto medo de perde-lo de novo e ver meu mundo desmoronar outra vez que dá até medo de ficar feliz… é como se eu tivesse que ficar esperando por algo ruim… Pensar que ele pode partir é tão terrível que mal acredito que ele esteja aqui tão lindo e tão presente na minha vida…

    • Angelina

      Ai q lindo Andreia, força, n pense negativo, curta o presente e pronto.

  • Antônio Martins

    Desde menino tenho medo de ser feliz…pior…além de me paralisar, esse medo me faz ter PRAZER em ser infeliz…cada passo, cada atitude é pensada em me deixar com energia negativa..luz nada, meu negócio é a sombra.

    • Angelina

      Posso imaginar isso..

  • Edson Roveri

    Flavio, eu fiquei órfão de mãe aos 4 anos e não me lembro dela, apenas alguns flashes. Mas certamente que ela me deu carinho e amor e me amamentou. Por outro lado meu pai era ancião e meus irmãos ausentes, cresci sempre só, e na escola no primeiro dia de aula no prezinho eu chorei, porque estava “fora” do meu aconchego, que apenas hoje compreendo que em substituição a minha mãe, fiz de minha casa o lar uterino.
    Nem preciso dizer como foi minha infância, um menino com esses ingredientes, me tornei introspectivo e valorizei o intelecto em detrimento do convivio social, mesmo porque eu tinha orelhas e abano e era estigmatizado e chacoteado, jamais era escolhido para o futebol, e cresci assim…
    Hoje enfim lendo seus textos, após anos de tantas buscas e me atirar de peito aberto no mundo e acumulando tantas perdas, alem de participar das perdas de pessoas queridas, eu compreendi o aspecto nocivo dos sistemas que depositei minha crença, e me vi em uma situação de urgente mudança, foi quando surgiu seu livro “Mudar”, e os Céus sabem como pedi por ele.

    Tudo que posso dizer, gratidão, Estimado Flávio, por disponibilizar sua sabedoria, conhecimentos e lucidez e nos apontar o caminho feito um verdadeiro farol.

    Então esta é a verdade neste dia. Esta é a energia neste dia. Estes são os potenciais que eu vejo, neste dia, e é por isto que lhe trago esta mensagem neste dia. O que posso dizer a quem se identificar com minha história é, saiam deste lugar diferentes de como chegaram, sabendo mais a respeito de quem vocês são, do que fizeram e do que está diante de vocês.

    Abraços

  • Marcia

    Tambem tenho esse medo. Quando estava tudo bem no meu relacionamento, minha mente ficava atormentada com ideias de que iria acabar logo e com medo de inveja. Foi um tormento tao grande que eu acho que preferi acabar com tudo para me livrar desse sofrimento.

    • Angelina

      Que pena Marcia, poderia ter dado certo, mas entendo vc.