O que queriam as mulheres polinésias?

Começo este texto citando algumas interpretações dadas pelo sociólogo norte-americano John Gagnon (num livro recém traduzido que se chama “Uma Interpretação do Desejo”) a respeito dos primeiros contatos dos marinheiros ingleses com as moças polinésias no fim do século XVIII. As moças surpreendiam os marinheiros pela facilidade com que aceitavam o contato sexual de forma gratuita e leve, mito que se estende até os dias de hoje a respeito da conduta erótica das moças daquela região do planeta – assim como também do nordeste do Brasil – e que seriam portadoras de uma sensualidade primitiva e muito pouco controlada por freios sociais.

Cito literalmente o texto do Gagnon (página 380). “ Minha resposta novecentista é que as mulheres eram produto de uma ordem social em que o sexo era uma forma não-marcada de sociabilidade prazerosa de mulheres e homens antes do casamento. Isso deve ter sido ininteligível para os europeus setecentistas, para quem a sexualidade era uma categoria marcada: ‘Não há no mundo pessoas que mais se entreguem a seus apetites do que estas; na verdade, elas os levam ao mais escandaloso grau’. O sexo como prazer não-marcado talvez seja mais difícil de compreender para os euro-americanos do século XX do que foi para os seus predecessores setecentistas, dadas as novas maneiras pelas quais se marcou a prática sexual nos últimos dois séculos”.

Ele narra depois que os marinheiros costumavam dar presentes para as moças que se comportavam com eles da forma assim desinibida. “As atividades dos corpos polinésios e europeus fundiu-se com a troca de bens e com a violação das relações corretas entre as mulheres e os homens taitianos. Não demorou muito para que a atividade dos corpos se tornasse cada vez mais condicionada aos bens, e para que as mulheres ficassem cada vez menos submissas ante o controle dos homens polinésios”…”Em termos de roteiros, essas práticas, iniciadas pelos europeus, começaram a transformação do impudico no obsceno”.

Este autor, entre outros, acha que as formas que o sexo assume nas diversas culturas depende menos da nossa biologia do que das regras que se estabelecem entre os membros de cada comunidade (que ele chama de roteiros). Não sei se consigo descartar tanto assim nossos aspectos biológicos, posto que tenho compromissos com minha formação médica ao passo que ele é um sociólogo. Acredito firmemente na existência de um forte desejo biológico relacionado com a visão, especialmente nos homens. Acho que isso implica numa busca ativa de aproximação do corpo masculino ao corpo da mulher que despertou o desejo. Se a mulher não fizer parte de uma cultura como eram as polinésias antes da chegada do capitão Cook (segunda metade do século XVIII), ela terá consciência de que os homens tentarão forçar esta aproximação.

Acho que os homens primitivos sempre se valeram da superioridade muscular para impor o encontro dos corpos independentemente da vontade feminina. Quando elas puderam dizer NÃO a eles e eles passaram a depender da anuência delas, tiveram que impressioná-las de alguma forma. Impressionavam pelo dinheiro, pelos encantos físicos, pelas virtudes de caráter e as qualidades intelectuais, pela posição social, pela habilidade de envolvê-las em promessas enganosas ou por uma mistura de alguns destes ingredientes.

É sempre bom aprendermos a pensar em termos de contextos históricos. O amor não definia o casamento até há muito poucas décadas, já que eles eram feitos por meio de arranjos de famílias (o que acontece até hoje com determinados grupos étnicos). Os relacionamentos conjugais eram fundados nos deveres das mulheres que não podiam se recusar aos seus maridos. Os relacionamentos afetivos mais intensos e os eróticos mais emocionantes, quando aconteciam, se davam fora do casamento e dependiam da anuência feminina. Assim, neste universo extraconjugal, elas sempre tiveram grande poder de escolha (ao menos as mais cobiçadas) e sempre souberam fazer uso dele. O fato é que com o advento do divórcio como prática social mais ou menos usual o direito de escolha e os poderes femininos se estenderam para o seio da vida conjugal.

Não pretendo me aprofundar mais nesses temas bastante polêmicos. Meu objetivo é apenas o de registrar minha convicção de que as questões sexuais sofrem enorme influência das normas e roteiros culturais. Sofrem a influência da forma como pensam as pessoas em cada época e em cada cultura. Assim, a resposta acerca da sexualidade feminina se complica ainda mais, pois o que as mulheres querem não é algo fixo e permanente. Talvez mais que os homens, elas respondem essencialmente ao que é do domínio da cultura.

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