O Romantismo Deixa Saudade?

No fim de uma palestra a respeito da nova visão que tenho do amor e das relações conjugais previstas para o século XXI, afirmaram que minha visão sobre o amor seria muito racional e “fria”: os relacionamentos serão muito práticos e convenientes e o romantismo, o sentimentalismo e tantas coisas boas estarão ausentes. E a pessoa perguntava se era isso mesmo o que eu pensava.

Gostaria de iniciar minha resposta dizendo que sou acusado de subtrair o encantamento do amor desde minhas primeiras publicações sobre o assunto em 1976, época em que defendia com ardor o amor romântico, aquele que se baseia na fusão de “duas metades” semelhantes às de uma laranja. Achava, como todo mundo, que era impossível ao homem ser feliz sozinho e que tudo se relacionava a uma boa escolha da parceria. Como essa escolha passa pela razão, eu era acusado de tentar dar lógica e rigor científico a algo que deveria acontecer por meios mágicos, pelas flechadas estabanadas do Cupido. Sou médico e não poeta; assim, é meu dever tentar dissecar os temas que estudo. Isso não significa, a meu ver, que os sentimentos desapareçam ou que estejam sendo menosprezados.

É sempre importante ressaltar também que a grande maioria das pessoas costuma se ressentir do fim de um sentimento e de um estado de alma que viveram apenas em fantasia. Sim, porque poucos foram os que viveram o amor romântico – entendido como aquele que deriva da idéia de que somos uma fração que só se completa pelo encontro de outra fração, constituindo a unidade em sua vida quotidiana –, poucos foram os que viveram sob o mesmo teto com aqueles a quem amaram loucamente.

Dá a impressão de que as pessoas que temem o fim do romantismo lamentam mesmo é o tipo de sofrimento que a ele esteve associado. Lamentam o fim das dores de estômago, da sensação de vazio, dos sentimentos que a música relativa aos desencontros amorosos nos evocavam. Choram o fim de algo que significou muito mais sofrimento que prazeres e alegrias. Quantos foram os que viveram em concórdia com suas “metades”, que com eles construíram uma família sadia, que foram cúmplices, amigos, amantes, tudo ao mesmo tempo? E quantos sonharam com isso – desfrutando destes prazeres apenas em pensamento – enquanto viviam os dissabores derivados do convívio com alguém que não lhes completava?

É fato que o avanço tecnológico cria novas condições ao nosso redor e que somos forçados a nos adaptar à nova realidade externa. É fato também que nem todos os desdobramentos do avanço tecnológico são, por princípio, geradores de melhoria na nossa qualidade de vida. No caso do amor, porém, tudo a que tenho assistido ao longo desses vinte e tantos anos em que venho estudando o assunto me dá a impressão de que estamos nos encaminhando para uma época de ouro. O fim da noção de que somos metades que se completam pela fusão e o surgimento da concepção de que somos unidades devem ser vistos com alegria, pois estamos mais perto da verdade. Não creio que possamos ser efetivamente felizes quando nos afastamos da realidade dos fatos. Sentimo-nos como uma fração, mas a verdade é que, independentemente de nossas sensações, somos uma unidade.

Graças ao que vivemos em decorrência do avanço tecnológico, que nos fez mais independentes por termos de ficar sozinhos por períodos de tempo maiores, aprendemos a compreender melhor nossa individualidade e isso nos fez aceitar melhor nossa condição de unidades. Isso é ótimo, pois permite que os encontros amorosos passem a se dar forma sob outro paradigma: em vez de metades que se fundem, unidades que se aproximam. Os novos relacionamentos serão baseados no respeito, na recíproca admiração, na confiança mútua, no encantamento sexual e fascínio pelo jeito de ser um do outro. Muitos serão os elementos racionais envolvidos – será que, de forma camuflada, não foi sempre assim? Porém, nem por um minuto imagino que tais relacionamentos serão carentes da ternura, dos momentos mágicos de completude e de plena harmonia que sempre caracterizaram os sonhos românticos. Ao contrário, acredito que seremos finalmente capazes de viver aquilo com o que, até hoje, só fomos capazes de sonhar.

Não acredito mesmo que a introdução explícita da razão nos processos amorosos, especialmente no que diz respeito à escolha da parceria, seja um fator negativo e diminua as chances de que o casal viva todas as emoções relacionadas ao amor. Aliás, não creio que exista um antagonismo entre emoções e razão. Não sei mesmo porque as pessoas insistem em pensar dessa forma. Talvez seja parte de um esforço para dar dignidade aos seus erros: se me encanto por alguém com quem não tenho afinidades e com quem só vivo às turras, deve ser porque o amor não tem mesmo racionalidade. Ou será que sou capaz mesmo é de sonhar com perfeição e viver o sofrimento e as brigas?

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