Os gordos podem aprender com os magros

Não pretendo ser simplista e afirmar que existe um caminho único e fácil para se resolver a complicada questão da obesidade. Mas proponho uma inversão radical no modo de pensarmos a respeito do assunto. Em vez de nos atermos aos gordos e aos seus hábitos, que tal voltarmos nossa atenção para o modo de ser dos magros?

Os magros não sabem o que é passar o dia contando quantas calorias foram consumidas, pensando nos alimentos antes de ingeri-los, visitando a balança. Os gordos se entretêm numa espécie de videogame interior, onde eles vencem ou perdem conforme o número de calorias que consumiram naquele dia ou naquela refeição. Nenhum magro sofre desse tipo de obsessão.

Trata-se de um processo psíquico muito intenso, capaz de determinar um novo tipo de prazer, semelhante ao que um corredor pode ter ao quebrar seus recordes. Compõe-se de uma espécie de desafio interior, que se associa a uma importante ocupação do tempo e da energia psíquica.

Sei de pessoas que emagrecem e ficam tristes porque não terão mais como ocupar seu cérebro. Em vez de ficarem contentes com o resultado obtido, sentem uma certa depressão relacionada com o fim do jogo.

Adquirir – ou readquirir – uma “cabeça de magro” implica em abrir mão desse tipo de disputa consigo mesmo, que envolve uma permanente intromissão da razão nos processos metabólicos e que provavelmente determina resultados muito negativos.

A conquista da “cabeça de magro” corresponderia à verdadeira cura, do ponto de vista psicológico, da obesidade. Ela consiste na renúncia da razão em querer controlar o processo alimentar e metabólico. Poderemos nos alimentar com a naturalidade característica dos magros, sem vergonha ou culpa – atitudes próprias dos que se acham em transgressão.

Nenhum magro entra numa doceria para, de forma rápida, comer doces com medo de ser pego em flagrante – comportamentos similares existem, por exemplo, entre os alcoólatras que tentam beber escondido.

O magro saboreia e se delicia com o doce comprado com orgulho. Não tem pressa de terminar, por isso não o coloca inteiro na boca. Mastigará delicadamente e comerá apenas o que desejar. Não terá de se fartar, uma vez que, para ele, a doceria não irá fechar amanhã.

O magro não fará dieta na segunda-feira, por isso não terá de comer toda a pizza que conseguir no domingo à noite – o que provoca a desagradável sensação de mal-estar decorrente do excesso de ingestão de comida. Comerá dois pedaços, talvez três. Sabe que poderá comer pizza de novo no lanche da manhã, se assim o desejar, condição que diminui a compulsão voraz.

É possível que o gordo que tentar viver como os magros venha a engordar uns poucos quilos no primeiro momento em que parar de se controlar e de dominar seus desejos. Isso durará pouco, pois a tendência para o abuso da liberdade recém-adquirida será breve. O que virá depois é a normalização da sua relação com a comida e com o peso corpóreo. Deixará de se pesar a todo momento, comerá sem culpa e somente o necessário. Não se sentirá tão feliz quanto imaginou, pois o prazer de se tornar magro é efêmero. Logo compreenderá que os magros também têm dissabores e sofrimentos.

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  • candangus

    Quer dizer que a pessoa engorda (ou se mantém gordo) porque conta calorias? Ou então porque come escondido, ou come um monte de doce de uma vez sozinho com medo de os outros lhe critiquem!… ah tá… ts, engraçado, eu conheço magros que pensam como gordos, que coisa né. Esse artigo foi de uma relevância pra minha vida, vou recomendá-lo a todos, viu?