Dr. Flávio Gikovate

Reflexão sobre o Feminino (Entendendo a Mulher)

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1. Introdução
Talvez agora sejamos capazes de pensar de forma mais livre sobre a mulher e a condição feminina. O tema sempre esteve envolto em brutais preconceitos: no passado vigia a tese machista da inferioridade da mulher, já nos últimos anos temos sido governados pela idéia da igualdade entre os sexos. O bom entendimento da questão perde nos dois casos, uma vez que a mulher não é inferior e nem igual ao homem, mas sim diferente, não havendo razão para que seja estudada tomando-se como referência a condição masculina. Não deixa de ser surpreendente o fato de que nos deixamos governar muito mais por idéias, concepções e ideologias do que pelos fatos. As diferenças entre os sexos são óbvias e só mesmo a interferência de poderosos ingredientes emocionais pode levar homens e mulheres a defender idéias que não têm respaldo no mundo real. Quando tais idéias foram elaboradas por homens, ao longo dos séculos, a conclusão foi a inferioridade da mulher. Talvez tenham sido movidos mais do que tudo pela enorme inveja que eles sempre sentiram delas.

Quando, nas últimas décadas, as idéias sobre o tema foram elaboradas por mulheres, concluíram pela igualdade entre os sexos. Elas buscavam condições objetivas iguais às dos homens, o que é inegável direito, mas acabaram por generalizar suas concepções relativas a importantes aspectos da vida social, tentando, por exemplo, entender a sexualidade feminina tomando por base a fisiologia dos homens. Sem perceber, elas os usavam como referência, como paradigma; não podemos deixar de reconhecer aí importante ingrediente invejoso da condição masculina, agora presente também nas mulheres.

Infelizmente, tudo leva a crer que falar sobre as condições masculina e feminina é tratar, muito de perto, da questão da inveja. Homens e mulheres são fascinados uns pelos outros – isso como regra geral, é claro –, mas dificilmente conseguem se entender bem. Percebemos a facilidade com que desenvolvem uma irritação desproporcional aos fatos quando convivem intimamente. Até mesmo a vida sexual dos que vivem juntos está muito aquém do que poderíamos supor a partir da intensidade da atração sexual que o homem tem pela mulher e que faz tão bem a ela. Assim, o esperado convívio amoroso e sexual, rico e pleno de prazeres, é, como regra, parte do imaginário da maioria das pessoas. Todo o objetivo daqueles que pensam sobre esses aspectos essenciais da vida íntima consiste exatamente em buscar os caminhos que permitam o entendimento entre os sexos, o qual, de fato, nunca existiu. A tarefa deve ser muito difícil, se assim não o fosse nossos antecessores já a teriam cumprido há muito tempo.

Meu objetivo principal ao longo desse texto é discutir alguns aspectos da fisiologia sexual feminina e sua repercussão na interação entre os sexos e na maneira de ser das mulheres. Não poderei deixar de fazer algumas observações sobre o masculino, uma vez que, ao menos até agora, o modo de ser de um sexo tem sido definido a partir do outro. Não creio que seja uma boa postura intelectual essa de, por exemplo, atribuirmos emotividade e maior sensibilidade ao feminino, e considerarmos racionalidade e maior agressividade peculiaridades do masculino. Fica muito difícil saber o quanto isso é verdadeiro e o quanto os homens escondem sua emotividade e as mulheres sua racionalidade, sempre com o propósito de “caberem” no modelo social preestabelecido. Temos que distinguir com a maior clareza possível entre aquilo que é um atributo do feminino e o que é parte do seu papel social; isto é, entre o que seja genuinamente produto da natureza feminina e o que é proposição cultural que busca definir e impor uma certa postura para as mulheres de uma determinada época e cultura.

O ideal seria o feminino ser estudado à parte, sem qualquer tipo de comparação com o masculino e vice-versa. Talvez consigamos, aos poucos, atingir esse objetivo, condição na qual poderíamos, finalmente, saber como é constituído cada um dos sexos. Na realidade, porém, os homens se comportam com a finalidade única de impressionar, agradar ou agredir as mulheres, e o mesmo acontece com elas. É possível que uma parte importante do que entendemos por feminino esteja sendo definida em função do masculino e que o contrário também seja verdadeiro. Compõe-se um tipo de círculo vicioso derivado da interação entre os sexos que, por vezes, torna muito difícil o entendimento dos ingredientes aí envolvidos. Farei algumas considerações sobre o que sou capaz de observar e que considero imprescindível no círculo vicioso em que vivemos há milênios e do qual ainda não conseguimos nos libertar. As pesquisas, até agora muito escassas, que deverão ser feitas nessa área da subjetividade humana não são filigranas. Elas tratam de algumas das particularidades essenciais da nossa espécie e que influíram – e muito – em todos os processos que culminaram com a elaboração das regras que norteiam nossa vida social.

Assim sendo, a questão sexual em geral e a das diferenças entre os sexos em particular são de capital importância para o entendimento da psicologia humana – e de alguns aspectos da própria fisiologia sexual – e para o estudo e compreensão dos aspectos socioeconômicos da nossa vida em grupo. Essa abordagem mais abrangente da questão sexual tem assumido uma importância crescente, uma vez que tem se revelado muito mais frutífera do que aquela que apenas levava em consideração os aspectos práticos e técnicos capazes de aprimorar a intimidade entre um homem e uma mulher.

Deixarei registrado, de modo veemente, que o objetivo de todas as observações que pretendo fazer é contribuir para ajudar no entendimento e libertação de complexos ingredientes que consideramos parte da relação entre os sexos; como são procedimentos que se repetem há muitas gerações, fazem parte da nossa cultura de modo tão arraigado que os vemos como naturais; são tratados com a naturalidade de um fenômeno que é parte da nossa biologia, apesar de que é forte minha convicção de não ser essa a verdade. Hoje, indiscutivelmente, eles fazem parte do cotidiano, das normas da vida social com as quais nos deparamos à medida que vamos nos tornando adultos. Cada nova geração se contamina muito rapidamente com o círculo vicioso negativo e percebe, com maior ou menor clareza, que as relações entre os sexos são tensas, de disputa e implicam num tipo de rivalidade no qual humilhar o sexo oposto parece ter se constituído num prazer. Adolescentes de ambos os sexos, mas principalmente os rapazes, dão claros sinais de sentirem os golpes iniciais dessa guerra entre os sexos, cujos primeiros movimentos parecem mais favoráveis às mulheres – ou, ao menos, a algumas delas.

2. Considerações acerca da origem da guerra entre os sexos
O tema é excitante e fundamental e sobre ele venho publicando desde 1979. Confesso que foi só com o passar dos anos que me dei conta da importância de algumas das considerações que fiz na época. E a título de autocrítica, devo dizer que fui um tanto ingênuo por não ter percebido a relevância das minhas observações. O que diminui um pouco a sensação desagradável que essa constatação me provoca é o fato de que não fui o único a ter dificuldade em lidar com a questão das diferenças entre os sexos e principalmente extrair delas todas as suas conseqüências. O próprio Freud apontou o aspecto mais importante relativo às diferenças entre o masculino e o feminino – qual seja, o da existência de um desejo visual masculino que inexiste na mulher – em uma nota de rodapé de sua obra O mal estar na civilização, escrita em 1930. Jamais voltou ao assunto! Uma importante diferença entre os sexos consiste na ausência de período refratário após o orgasmo nas mulheres, diferentemente do que acontece com os homens, e quem primeiro a registrou foi Masters e Johnson; esses autores também não conseguiram extrair todos os desdobramentos que tão importante diferença impõe. É indiscutível a dificuldade que temos de estudar a nós mesmos!

Tentarei penetrar no círculo vicioso que determina a hostilidade recíproca entre homens e mulheres pelo ponto que considero o inicial: aquele que define as primeiras sensações dos homens diante da diferença entre os sexos que surgem junto com a sexualidade adulta. Registrei, há quase 20 anos, que a chegada dos primeiros impulsos eróticos mais intensos que, nos rapazes, acontece ao redor dos 13 anos – junto com o surgimento dos caracteres sexuais típicos da virilidade –, vem acompanhada de algumas sensações íntimas negativas e totalmente inesperadas. Os meninos crescem com a idéia de que são os privilegiados, uma vez que lhes ensinaram que o mundo é dos homens. O contrário acontece com as meninas, de sorte que muitas delas crescem revoltadas e invejosas da condição privilegiada que os meninos costumam ter em sociedades como a nossa. Com a chegada da puberdade, os rapazes passam a sentir enorme desejo sexual por um sem-número de moças, desejo este que pede a aproximação e o roçar no corpo delas. A grande e inesperada surpresa é que tal desejo não é correspondido. Por essa eles não esperavam! A partir daí, desenvolvem uma sensação de inferioridade, frustrando-se pela ausência de reciprocidade. Desejar sem ser desejado da mesma forma gera uma enorme frustração em praticamente todos os moços. Tal sentimento muito comumente acompanha os homens ao longo de toda a vida.

Em geral, os rapazes atribuem, até hoje, o fato de não serem objeto de desejo visual à sua “precária” aparência física. Portanto, o que é baixo, gordo, narigudo, entre tantos defeitos que os adolescentes vêem em si mesmos, sente-se não-atraente devido a essas desvantagens relacionadas com sua imagem. Entendem a questão como um fato particular, condição na qual ficam muito deprimidos e ressentidos. Para eles, outros rapazes provocam o desejo que na verdade eles mesmos gostariam de causar, podendo desenvolver grande hostilidade invejosa em relação aos mais bonitos e charmosos. Seguramente, a beleza masculina é um elemento capaz de despertar o interesse das mulheres, mas é fato também que existe uma grande diferença entre despertar o interesse e o desejo. Não sabemos como reagirão os moços quando puderem crescer e chegar à adolescência já de posse dos dados relativos à nossa sexualidade que só agora estão começando a nos ficar mais claros.

A diferença, certamente, é de natureza biológica e independe da aparência física dos rapazes. Corresponde, como já apontado por Freud, à transferência para a zona da visão daquilo que, nas outras espécies de mamíferos, é próprio da olfação. O desejo é propriedade masculina, define um papel ativo para o macho no tocante à abordagem sexual. Nos mamíferos, em geral, tal característica não define qualquer diferença hierárquica: é apenas uma diferença. Na nossa espécie, existe a diferença e o que as mentes dos homens e, é claro, das mulheres pensam sobre ela. Não há, para nós, fatos desacompanhados das reflexões e ponderações que fazemos a respeito deles. Em geral, os homens sentem-se prejudicados pela constatação; registram a diferença na natureza do desejo como grande desvantagem, o que determina o surgimento de uma enorme hostilidade de natureza invejosa. Em 1979, apontei e enfatizei que a primeira manifestação invejosa adulta era do homem em relação à mulher e não o contrário, que é voz corrente em psicologia.

A constatação de que o desejo visual é unilateral desperta no homem a consciência de que há uma vantagem feminina nesse ponto de vista, uma vez que ela terá que concordar com a aproximação física dele – ao menos no mundo civilizado, onde não é aceita a violência física para impor a intimidade sexual; entende-se também por esta via a origem do estupro: uma revolta, levada às últimas conseqüências, contra a diferença sexual. A concordância da mulher dar-se-á em decorrência de outros fatores que não o desejo visual, pois ele não existe da mesma forma como nos homens. O fato de um homem já desejar uma mulher e ter que esperar pelo veredicto dela para saber se poderá ou não se aproximar dela lhe determina, como disse, um forte sentimento de inferioridade acompanhado de uma profunda inveja, ou seja, de enorme hostilidade sutil e que tentará se exercer de forma um tanto dissimulada.

O que fizeram os homens? Beneficiaram-se de sua superioridade muscular e, quando tal propriedade era básica para o exercício das atividades fora de casa – o que se costuma chamar de “espaço público” –, trataram de se apropriar dos poderes que derivam de serem os detentores dos frutos do trabalho, o que, mais ou menos rapidamente, passou a corresponder a alguma forma de dinheiro. Como não poderia deixar de ser, levando-se em conta a inveja masculina e a necessidade de melhorar sua posição perante as mulheres, fecharam as portas do mundo do trabalho, de modo que a elas ficava reservado apenas o “espaço privado”. Estavam fadadas a reproduzir e a cuidar da casa, dos filhos e do seus esposos, de quem se tornavam totalmente dependentes para os fins de sobrevivência material.

A descrição que faço é superficial e um tanto esquemática, mas serve para demonstrar que os homens trataram de reverter sua sensação de inferioridade e de impor sua força sobre as mulheres. A força efetiva era a física, mas eles foram se tornando, aos poucos, muito competentes até mesmo naquelas atividades que não dependiam da supremacia física. Acredito firmemente que têm sido mais eficientes do que as mulheres nas atividades intelectuais apenas porque atribuíram a si tais tarefas – das quais elas foram ativamente alijadas – e não por força de alguma inferioridade feminina. No entanto, não foi exatamente assim que o assunto foi colocado: passaram a considerar as mulheres como intelectualmente inferiores; esse tornou-se o discurso oficial de sucessivas gerações de homens. Gostavam de afirmar a suposta inferioridade feminina e se deleitavam na busca de argumentos a favor dessa tese; por conseguinte, o machismo se caracterizava essencialmente pela explícita atuação na direção de afirmar a supremacia masculina em todos os campos – com exceção do mais importante, que, para os homens, continuou sendo o sexual.

Gostaria de enfatizar que a inveja dos homens em relação às mulheres sempre esteve associada à frustração que eles sentem pelo fato de não se sentirem desejados sexualmente. Não são todas as diferenças entre os sexos que provocam a inveja, só aquelas que são percebidas como vantagem para o outro, como superioridade. Não creio, pois, que seja motivo de inveja o fato de a mulher poder engravidar e ter filhos; para os homens, isso é desvantagem e não privilégio; aliás, muitas são aquelas que também sentem como desvantagem o fato de ter que engravidar e ver seu corpo deformado por tantos meses. Igualmente, os homens não invejam a menstruação e nem as mulheres os invejam pelo fato de eles terem que se barbear diariamente. Inveja não subentende diferença e sim diferença interpretada como favorável ao outro.

As mulheres, ao se virem alijadas do espaço público e perceberem os enormes avanços que os homens eram capazes de fazer ao se dedicar às atividades relacionadas com o trabalho fora de casa passaram a sentir forte inveja do sucesso que tantos deles obtiveram em decorrência da competência que demonstraram nesse setor da vida. Na prática, surgia uma condição favorável à inversão de poderes, uma vez que agora eram as mulheres que passavam a querer se aproximar daqueles homens mais bem-sucedidos, do mesmo modo que estes sempre desejaram a intimidade com as mulheres mais atraentes. O que acabou acontecendo foi um equilíbrio entre os poderes masculinos – adquiridos, fruto da boa utilização da sua superioridade física e do afastamento intencional das mulheres de suas áreas de atuação privilegiada – e femininos – inatos, principalmente relacionados com a aparência física e a capacidade de despertar o desejo sexual.

Eis aí o ingrediente essencial para o estabelecimento e perpetuação da guerra entre os sexos: a inveja recíproca. Ela contém um elemento agressivo que deve se manifestar de forma sutil e disfarçada; os homens que ressentem muito as mulheres poderão se posicionar como se fossem encantados por elas – o que, de resto, é verdade. A inveja corresponde ao surgimento de reações agressivas em relação a alguém que admiramos muito justamente por ser portadora de características que também gostaríamos de ter. Assim, nosso sentimento por essa pessoa será sempre ambivalente. Na prática, tal mistura pode determinar uma conduta masculina muito típica do conquistador: o homem se mostra, sem muita dificuldade, encantado por uma dada mulher; faz de tudo para seduzi-la dando-lhe demonstrações de enorme interesse humano, quando, na verdade, o real interesse é essencialmente sexual; consegue induzi-la à intimidade física e depois desaparece de sua vida, fazendo-a sofrer muito; este último procedimento decorre do ingrediente agressivo, vingativo mesmo. É como se aquela mulher estivesse pagando por todas as outras que lhe despertaram o desejo. Desaparecer depois de seduzi-la é humilhá-la, fazer com que ela sinta dores similares às que ele sentiu quando as mulheres em geral o rejeitaram, especialmente durante os anos da puberdade. Muitos são aqueles que gastam boa parte de sua energia, ao longo de toda a vida adulta, nesse tipo de atividade, na qual não estão buscando apenas prazeres eróticos intensos, mas também tentando resgatar a auto-estima que perderam durante os anos da adolescência.

É muito peculiar à nossa inteligência a busca de comportamentos capazes de conciliar emoções antagônicas, como mostrado no exemplo acima. Não devemos nos apressar ao interpretar condutas humanas, pois elas podem estar a serviço de vários propósitos simultaneamente. É o caso da reação das mulheres em relação aos comportamentos masculinos que caracterizam o machismo. Ao perceberem que os homens se sentem diminuídos por desejarem e não serem correspondidos da mesma maneira, elas se empenham ainda mais em se tornar atraentíssimas. Fazem isso com o intuito de chamar-lhes a atenção e agradá-los? Esse ingrediente também está presente, parte do erotismo típico da vaidade; quando imaginam o desejo que irão despertar, poderão se deleitar antecipadamente e até se excitar sexualmente com isso. Tais ingredientes não excluem aquele de natureza agressiva derivado da inveja que elas também sentem dos homens – tanto a inveja derivada do período infantil, onde, de fato muitas meninas gostariam de ter nascido meninos, como aquela derivada do maior sucesso social e profissional que usualmente obtêm aqueles homens que são tidos como os mais interessantes; despertar-lhes o desejo sem permitir qualquer aproximação é o mesmo que levar uma criança pobre para olhar, através da janela, uma sorveteria. Há clara maldade na postura das mulheres que se empenham em se tornar enormemente atraentes, sobretudo quando o objetivo delas é apenas o de provocar o desejo masculino para que eles se sintam humilhados por uma eventual rejeição.

As moças percebem que dispõem de um importante poder de atração sobre os homens já nos primeiros anos da puberdade e adolescência. Com o crescer dos seios e o arredondar dos quadris elas passam a chamar a atenção e a atrair um determinado tipo de olhar diferente daquele que estavam acostumadas a receber durante os anos da infância. Trata-se de uma descoberta complexa, que pode ser entendida como a que determina a perda da ingenuidade. A ingenuidade não é perdida, segundo creio, quando um menino ou menina descobrem como nos reproduzimos e sim quando percebem – e as meninas parece que saem na frente nesse aspecto – que existe um complexo jogo de poder entre os sexos e que a vida sexual não pode ser praticada com a simplicidade com que as crianças “brincam de médico”. A descoberta do poder sensual por parte das moças leva muitas delas a um estado de timidez, de retraimento, sendo que algumas entram mesmo em pânico. Elas percebem que atraem os homens e isso as excita muito. Aquelas que sentirem medo da própria excitação, muito intensa e um tanto inesperada, ficarão totalmente inibidas naquelas situações propícias para provocá-los. O que farão? Tentarão minimizar seus poderes através do uso de roupas extremamente recatadas, ganhando peso, se tornando particularmente retraídas, etc. Na realidade, não aprenderam nem a “domesticar” seus impulsos sexuais e tampouco a instrumentalizá-los. Passam a sentir-se à mercê deles, ficam reféns de sua própria excitação, o que determina um estado de confusão psíquica capaz de gerar sintomas como os acima descritos, entre outros.

Um certo grupo de moças aprende a lidar com sua própria sexualidade; elas passam a ter controle sobre esse instinto e perdem o medo de serem “desencaminhadas” por causa dele. Tal temor era mais intenso no passado, quando eram muito intimidadas por seus pais quanto às peculiaridades do sexo. Hoje, ao contrário, as de 13 anos “ficam” com os rapazes da mesma faixa etária nas festas e, através dessa sadia experiência, vão aprendendo a sentir a excitação sexual sem medos e sem receio de perder o controle sobre si mesmas. Aprendem isso por meio das sensações tácteis que as trocas de carícias determinam; notam que a excitação determinada por olhares de desejo não são de natureza diferente, de modo que perdem a ingenuidade e parte do medo que eventualmente experimentaram pelo fato de terem crescido e se tornado atraentes, e com isso aprendem a lidar com sua sexualidade. Percebem que muitas moças podem usá-la como arma de sedução e de humilhação em relação aos rapazes, mas nem sempre seguem por esse caminho.

Um outro grupo de moças, nada pequeno, percebe o poder que elas têm aos olhos dos homens, o qual será tanto maior quanto mais forem capazes de se vestir e de se comportar de determinados modos que eles sintam como particularmente excitantes. A excitação que isso lhes causa pode provocar uma certa perturbação íntima, mas aprendem a sentir mais prazer em provocar o desejo do que em sentir qualquer tipo de excitação sexual que não seja aquela derivada do exercício da vaidade. Para elas, despertar o desejo dos homens, tê-los rendidos aos seus pés torna-se o mais importante. Nesse caso, existe o benefício simultâneo de dois componentes do processo: a vaidade e o desejo agressivo; o ingrediente vingativo e invejoso passa a participar ativamente do fenômeno sexual. Aliás, é por razões dessa ordem que ainda temos muito que pensar sobre a dramática associação, presente, em doses variadas, em quase todos nós, entre sexualidade e agressividade. Para tais moças, como regra as mais atraentes, o poder sensual se torna um instrumento de dominação, humilhação e uma arma muito poderosa. Sim, porque sabemos o quanto os homens são sensíveis a esse tipo de encanto.

Não posso deixar de registrar um importante subproduto derivado desses processos psíquicos tipicamente femininos e que têm a ver com o poder que, sem muito esforço, passam a ter a seu dispor. Surge uma importante e grave tendência, na maioria das moças mais atraentes, a se acomodarem na condição privilegiada que a natureza lhes criou. São muito bem-sucedidas socialmente, assediadas, convidadas para muitas festas e sempre muito bem recebidas pelos rapazes; tudo em virtude de suas propriedades inatas, de sua aparência física. Elas sabem que o mundo se curva aos seus pés, e que isso acontece mesmo que não façam nenhum esforço. Têm acesso ao que é tido como o que há de melhor sem ter que fazer outra coisa senão existir e se manter atraentes. Poucas são as que compreendem, na mocidade, que tais propriedades não durarão mais que umas poucas décadas e que seria importante que cultivassem outras prendas, tanto morais como intelectuais, capazes de gerar competências práticas que pudessem torná-las criaturas verdadeiramente independentes e produtivas. Julgam-se muito espertas porque têm tudo “de mão beijada” e não percebem que estão construindo um futuro muito sombrio para si mesmas.

A instrumentalização do poder sensual, executada justamente por um bom número das mulheres mais bonitas, atraentes e que são cobiçadas por muitos homens, acaba por ser percebida pelos mais inteligentes e perspicazes. O que eles fazem? Tratam de sofisticar ainda mais seus poderes e de instrumentalizá-los na mesma medida. Assim, muitos homens vão se apercebendo que só terão acesso a essas mulheres se tiverem boa posição econômica, social e profissional. Esforçam-se por conseguir tais distinções e, aparentemente, as oferecem às belas mulheres que tanto os encantam. Na realidade, apenas usam seus sucessos como uma espécie de “chamariz”, da mesma forma que elas se utilizam da beleza. Mostram o que têm, mas não dão nada. Levam as belas moças para passear nos seus lindos carros, lhes dão “presentinhos” de valor duvidoso e tratam de, através de seus poderes, seduzi-las a partir da hipótese de que não é impossível que consigam conquistar um homem assim, um “vencedor”. Eles, na verdade, buscam o sucesso essencialmente com o intuito de melhorar sua posição nesse jogo de poder que se estabelece em relação às mulheres mais belas; depois, querem mesmo é envolvê-las, ter a intimidade física desejada para, logo em seguida, rejeitá-las e humilhá-las. Elas aperfeiçoam suas armas por um lado e eles fazem o mesmo por outro.

Um número nada desprezível de homens pode reagir de forma diferente diante da instrumentalização da sexualidade feminina: inibem o desejo em relação a elas. Tal inibição poderá determinar uma variedade de sintomas que chamamos de impotência sexual, sobre os quais temos que refletir mais profundamente, uma vez que podem muito bem ser explicados por razões lógicas e até mesmo plausíveis e não sempre como uma patologia. Outros homens, especialmente quando outros fatores, que não cabe aqui discutir, também estão em jogo, não só inibem o desejo em relação às mulheres como o liberam na direção de outros homens. Não tenho dúvida que essa dramática condição de guerra entre os sexos é um importante fator causador do encaminhamento homossexual, principalmente em homens de índole delicada, pouco agressivos e de boa aparência física – talvez por isso mais tentados por olhares de desejo vindos de outros homens que já transferiram o desejo do sexo oposto para os do mesmo sexo.

A inveja recíproca só cresce, assim como as hostilidades. Tudo fica camuflado por uma aparente disposição de natureza romântica entre homens e mulheres, sendo que o que realmente está em vigor é uma terrível luta pelo poder. Não creio que se possa sequer pensar em ingredientes amorosos em tais condições – e que, na prática, corresponde apenas a um dos ingredientes que envolvem essa complexa condição de relacionamento entre os sexos. Nem mesmo se pode pensar em importantes ingredientes eróticos, uma vez que o elemento fundamental envolvido é mesmo o de natureza agressiva.

Minha intenção principal foi mostrar, a partir dessa sumaríssima descrição, como todos nós, homens e mulheres, nos perdemos de nós mesmos e, em virtude da forma como internalizamos e sentimos essa diferença na natureza da nossa sexualidade, nos tornamos escravos uns dos outros. Na realidade, nessa guerra, como em tantas outras, não existem vencedores e vencidos. Todos perdemos. Nos afastamos de nós mesmos, passamos a nos preocupar mais do que deveríamos com o que os outros pensam sobre nós e, em especial, os do sexo oposto. Homens e mulheres não buscam suas identidades, não podem se encontrar consigo mesmos e com suas verdadeiras pretensões. Se tornam escravos dessa diferença sexual mal equacionada e mal aceita; além disso, perdem o contato com o sexo como fonte de puro prazer. A grande verdade é que, em nossa espécie, o sexo está associado à agressividade de uma forma muito mais categórica do que ao amor – é claro que muitas são as exceções.

Não estou defendendo a tese de que o sexo deve se associar ao amor. Acho que isso foi estimulado nas mulheres segundo os interesses dos homens. Não que não seja uma boa associação, mas esteve a serviço de intuitos repressores. Os homens poderiam ter sua sexualidade livre do amor, ao passo que aquelas mulheres que fossem competentes para o sexo fora do contexto romântico eram vistas como levianas ou prostitutas. Certamente, essa é mais uma manifestação da insegurança sexual masculina, que não poderia deixar de ser muito forte se levarmos a sério toda a descrição que acabei de fazer; eles fazem de tudo para tentar reprimir sexualmente as mulheres, sobretudo aquelas que lhes são relevantes – esposas, filhas, mães. Assim, mulheres “de bem” só podem ter interesse sexual no contexto da família ou, para ser mais moderno, num contexto amoroso. Faço parte daqueles que gostariam de ver a sexualidade podendo se exercer de forma livre, isolada e não como um impulso que está sempre acoplado a outros. Com isso, não estou deixando de considerar que pode haver associações e muito menos que a associação do sexo e do amor não seja uma coisa ótima. Não gostaria que associações fossem usadas com o intuito repressivo ou estivessem a serviço de empobrecer nosso principal instinto.

3. Mais uma diferença sexual: ausência de período refratário
Não aprendemos a lidar com nossas diferenças e nem temos sido treinados para isso, apesar de todo o discurso oficial que nos diz para respeitarmos os que não pensam como nós. A verdade é que tendemos a não dar crédito àquelas pessoas que concluíram de modo diverso do nosso a respeito de qualquer tema. Naqueles mais polêmicos e sérios, como política e religião por exemplo, o fato é que nos irritamos muito quando nos deparamos com alguém que tem opinião divergente. A diferença de ponto de vista é vivenciada como ofensa pessoal, mormente quando acontece com pessoas que nos são caras do ponto de vista sentimental. É como se nos sentíssemos abandonados, traídos. Gostamos que pensem do mesmo modo que pensamos porque nos sentimos aconchegados, menos solitários nesse mundo. Detestamos tudo o que nos lembra da nossa condição de desamparados, sozinhos e insignificantes.

Pensando um pouco mais profundamente, é evidente que as diferenças de opinião têm que existir. Não há dois cérebros idênticos, a não ser nos casos de gêmeos univitelinos, além do que cada um esteve submetido a experiências peculiares, sobre as quais refletiu e ponderou de modo próprio. A unicidade e a solidão que daí derivam são partes essenciais de nossa condição, quer suportemos bem esse fato, quer não – nossa condição é de “solidão radical”, como disse Ortega y Gasset. O contrário é que é verdadeiro: deveríamos nos surpreender agradavelmente quando nos deparamos com alguém que pensa de modo parecido ao nosso. Tais pessoas, que são as que servem para ser nossos amigos e que deveriam ser também nossos parceiros sentimentais, são tanto mais raras quanto mais sofisticado for nosso aparelho psíquico; assim, pessoas mais simples costumam ter maior facilidade para encontrar outras com quem gostem de conversar. O que está por trás da nossa intolerância para as diferenças de opinião é, insisto mais uma vez, a incapacidade que temos de nos aceitarmos como seres únicos e solitários. Queremos nos realçar, pois isso faz bem à nossa vaidade – importante ingrediente de nosso erotismo relacionado com forte prazer exibicionista. Gostamos, portanto, de ser únicos, mas não suportamos nos sentir solitários, de modo que desejamos nos sobressair dentro de contextos nos quais os outros estão presentes e compartilham de interesses muito próximos. É mais fácil, sob o aspecto psicológico, se destacar por possuir um relógio que todos querem ter do que ter pontos de vista discrepantes. O relógio nos faz ídolo dos que sonham com ele, ao passo que a idéia original nos faz sentir solidão, tende a afastar as pessoas de nós.

Vejamos como isso se torna muito complicado e de solução difícil quando estamos estudando o relacionamento íntimo. Como não podemos suportar bem a solidão tendemos a nos acoplar, formando pares. O amor existe, como sentimento gratificante derivado de uma união estável, justamente porque suportamos mal o estar só em decorrência de nos sentirmos incompletos em nós mesmos; é como se algo estivesse nos faltando e que só será preenchido pela presença constante de uma outra pessoa muito especial. Assim, mesmo na fase adulta da vida, continuamos a ter interesse em estabelecer um elo similar ao que tínhamos com nossa mãe. Precisamos do aconchego que deriva de uma aliança forte, rica em ingredientes infantis. Quase todos nós precisamos desse “colinho” qualquer que seja nossa idade. E os que podem prescindir dele ainda assim gostam muito dessa situação; buscam-na com menos desespero porque podem ficar só; contudo, buscam-na; não o precisam, mas o desejam.

Vimos, no segmento anterior, que homens e mulheres rivalizam e estão em permanente luta pelo poder em virtude da mal elaborada diferença da importância da visão no despertar do desejo sexual. E são esses mesmos indivíduos, quase sempre em pé de guerra, os que terão que se aconchegar e assim atenuar a dolorosa sensação de desamparo presente neles. Terão que ser, ao mesmo tempo, rivais e protetores um do outro. Não é à-toa que são tão grandes as desconfianças que costumam se manifestar a todo instante nos relacionamentos íntimos. Como confiar no nosso maior rival?

E mais: como suportar que aquele que é o nosso objeto de aconchego tenha pontos de vista diferentes dos nossos se isto justamente é o que mais nos faz sentir abandonado e sozinho? Não é sem motivo, pois os casais brigam tão dramaticamente por qualquer mínima diferença de opinião. São sérias as razões que levam aqueles que se amam a quererem homogeneizar todos os seus gostos e interesses, suas convicções e seus projetos de vida. Por outro lado, tal empenho não pode deixar de desembocar em atitudes totalitárias, nas quais um dos dois acaba por dominar, ao menos em aparência, o outro. Estabelecem-se, assim, as freqüentes relações que E. Fromm chamava de sadomazoquistas. Ao mesmo tempo, e se levarmos em conta que não existem dois cérebros iguais e que as experiências de vida são únicas, como poderemos sustentar a hipótese de homens e mulheres serem e pensarem da mesma forma?

Nos perdemos nos meandros das nossas próprias contradições, sendo que muitas das precárias reflexões que comumente fazemos derivam justamente de algum ingrediente emocional mal elaborado. Como não suportamos nossa condição de solitários, gostamos de supor que o outro sente e pensa de modo similar ao nosso. Não podemos deixar de pensar assim porque nossa emoção o pede. Ao mesmo tempo, os fatos nos irritam a todo instante porque nos provam o contrário (“Minha mulher, ao menos ela, terá que pensar como eu, sentir a vida como eu, ter sensações psicológicas similares às minhas, viver sua sensualidade de modo idêntico ao meu”. “Se o meu marido dá sinais de interesse pelo “traseiro” daquela outra, já fico irritada, pois não fico olhando o corpo dos outros homens”. Estes são alguns exemplos do que acontece no cotidiano de quase todos os casais, sempre em virtude da tentativa de homogeneizar pensamentos).

Na realidade, não podem existir dois cérebros pensando do mesmo modo o tempo todo; isso não acontece nem mesmo entre gêmeos idênticos, pois cada um acaba por concluir de forma peculiar sobre os acontecimentos que assolaram a ambos; ou então esteve submetido a condições únicas, não idênticas às do irmão – por exemplo, um dos dois contrai uma doença do tipo hepatite, que exige longa recuperação, e pronto, já aconteceu de terem tido uma vivência importante que os diferencia. Ora, o que dizer de um homem e uma mulher que, no mínimo, têm no seu instinto sexual algumas diferenças que fazem com que suas histórias de vida sejam não só diferentes como percorram territórios antagônicos? Como supor que um homem, que tem o desejo ativo visual e que se sente frustrado pela não- correspondência, possa ter uma subjetividade idêntica à de uma mulher, que é objeto do desejo masculino e que se sente gratificada e enlevada por isso? Apenas por força dessa diferença, penso que já seria impossível qualquer conjectura a respeito da igualdade entre os sexos. Igualdade de direitos e de responsabilidades é claro que deve existir, mas não é sob essa ótica que estão sendo formuladas essas reflexões. Além do mais, nossa ânsia pela igualdade se origina mesmo é na nossa incapacidade de suportar a solidão e não em uma ideologia que tenha se mostrado convincente à nossa razão.

Nos irritamos brutalmente com as diferenças entre as pessoas, tentamos equalizar nossa subjetividade com a da nossa mulher e vice-versa, mas nada disso adianta: lá estão novamente as irritantes diferenças na maneira de ser e de sentir que acabam por se refletir na forma com que cada um fala. Não podemos sequer saber se as palavras, usadas por pessoas diferentes, correspondem, no íntimo delas, a sentimentos similares. De fato, a mente alheia é, e sempre será, um mistério para cada um de nós. A psicologia é a ciência que estuda, entre outras coisas, os modos de tentarmos construir pontes entre essas ilhas solitárias! Seus conceitos sempre terão que ser usados com enormes reservas, justamente em virtude das dificuldades que encontramos ao queremos entender o que se passa dentro do outro. Gostamos de qualquer concepção ou ideologia que nos diga que somos todos iguais – e contra elas nossa vaidade imediatamente irá se insurgir, pois ao mesmo tempo odiamos ser iguais aos outros –, mas somos todos diferentes; e mais, esta diferença se exalta quando falamos de um homem e de uma mulher.

Se os sexos já se distinguem pela diferença, já descrita, relacionada com a importância da visão no desencadear dos processos eróticos, mais complicada ainda fica a questão quando levamos em conta o fato de que existe uma outra diferença essencial na nossa fisiologia sexual: o homem experimenta um período refratário após a ejaculação, o qual inexiste na mulher; tanto é assim que ela pode continuar trocando carícias eróticas indefinidamente, sem que isso se torne repulsivo, doloroso ou desagradável. Tal diferença é, como regra, acatada na vida prática e no cotidiano dos casais. Assim sendo, sempre que o prazer não é alcançado simultaneamente – o que é o mais comum, aliás a idéia de que as descargas teriam que acontecer ao mesmo tempo já deve ter se originado no anseio de atenuar a solidão e de uma tentativa de impor a igualdade –, a preferência é dada à mulher, não por cavalheirismo, mas porque o homem não costuma ter condições “técnicas” para continuar o ato sexual depois da ejaculação.

Em outros momentos, porém, a diferença volta a ser vivenciada como grave ofensa pessoal. A questão do orgasmo feminino, à qual voltaremos mais adiante, tem tendido a se transformar em ponto de honra para os homens, que insistem em imaginá-lo como algo equivalente à sua própria ejaculação. Será que é assim mesmo? Na realidade, não temos como saber exatamente o que sentem as pessoas do sexo oposto no momento preciso da descarga fisiológica que lhe é tão característica. A virilidade e a auto-estima sexual dos homens têm estado associadas à competência, que eles têm sido estimulados a desenvolver, para conduzirem suas parceiras ao nível de excitação e descarga adequado. Como saber se a mulher está mesmo tendo um orgasmo ou se está fingindo? Como saber se é verdade ou mentira algo que diz respeito a um fenômeno que não temos meios de conhecer “por dentro”? Como confiar no sexo oposto, nosso rival tradicional? Como saber se a mulher está mesmo “se entregando” a um homem ou apenas fingindo fazê-lo para, com isso, ter mais poderes sobre ele?

A resposta a tais perguntas é muito simples: não temos meios para saber exatamente o que se passa na mente de outra pessoa, e muito menos se for do sexo oposto. Nós, homens, não sabemos como funciona o psiquismo de uma criatura que não vivencia um período de desinteresse sexual depois de atingir o orgasmo, do mesmo modo que uma mulher não saberá, jamais, o que significa um período refratário. Os sinais derivados da diferença são relativamente evidentes e tendem a ser motivo de brigas: o homem, relaxado e completamente saciado, quer dormir um pouco; a mulher, estimulada pelo clima erótico que nela não se extingue completamente, quer conversar e namorar. Ambos se decepcionam, acusam o parceiro de grosseria ou de incompreensão. As diferenças, sempre que aparecem, nos deixam incomodados, desconcertados e perplexos.

Não é impossível que a percepção, ainda que não muito clara e consciente por parte dos homens, de que a inexistência do período refratário determina uma possibilidade sexual ilimitada para as mulheres seja mais um fator de inveja e de insegurança masculina. Inveja porque a cultura machista sugere que serão tanto mais viris aqueles que forem mais competentes – qualitativa e quantitativamente – e interessados em práticas sexuais. A disputa entre os homens é no sentido de terem mais sucesso com muitas mulheres e de serem capazes de múltiplas experiências sexuais em curto prazo. Ora, isso é coisa muito fácil para as mulheres, uma vez que a ausência do período refratário faz com que não exista limite biológico para a prática sexual feminina – a prostituição feminina, por exemplo, é muito mais fácil de ser exercida do que a masculina.

A insegurança masculina está relacionada com o fato de as mulheres poderem, caso quisessem, ter experiências sexuais com grande facilidade. Não costumam ter dificuldades para encontrar parceiros para esse fim, assim como não lhes falta disponibilidade fisiológica. Aliás, a fantasia masculina é exatamente essa: a de que as mulheres são criaturas que, quando bem envolvidas e seduzidas, certamente acabarão cedendo aos apelos eróticos de um homem interessante e sutil. Eles pensam sobre o assunto tomando por base a eles mesmos e como agiriam se estivessem no lugar delas, o que não tem nada a ver com o que, de fato, acontece com elas. Os homens sentem-se inseguros porque temem que as mulheres façam aquilo que eles fariam se possuíssem as facilidades que reconhecem existir na vida delas. Só que elas não são iguais a eles e, sendo como são, agem como os seus anseios determinam. Esse é mais um fator importantíssimo de desconfiança, inveja e desentendimento entre os sexos.

Não podemos saber o quanto das diferenças no modo de experimentar a vida, o trabalho, as relações afetivas e familiares derivam das nossas diferenças fisiológicas. Não é a mesma coisa ser o que deseja e o que é o desejado, nem ter ou não período refratário depois de um encontro sexual, tampouco ser mãe e ser pai, e assim por diante. Se pudermos aceitar melhor nossa condição de criaturas solitárias, talvez possamos ser mais condescendentes com as diferenças que existem entre as pessoas em geral e entre o homem e a mulher em particular. Possivelmente isso nos ajude muito a entender um pouco mais um do outro ao invés de apenas nos hostilizarmos.

Podemos entender perfeitamente por que as mulheres – quando, com toda a justiça, se insurgiram contra a idéia tradicional da inferioridade de sua condição – aderiram à hipótese da igualdade entre os sexos; elas não podiam se reconhecer como diferentes, pois a solidão lhes incomoda tanto quanto aos homens! Assim, enveredaram por uma rota de pensamento extremamente perigosa e de alto risco: passaram a ter os homens como padrão de referência para o entendimento de sua subjetividade. O equívoco é, a meu ver, muito grave; o denunciei já em 1980 e isso me rendeu péssimos dividendos: fui acusado de “machista”, uma vez que “não aceitava” a tese da igualdade entre os sexos. Do meu ponto de vista e das pesquisas que então desenvolvia, eram cada vez mais relevantes os desdobramentos da diferença na intensidade do desejo visual entre os sexos. O curioso é que, na época, a supremacia feminina me parecia indiscutível, o que hoje já não me parece ser tão verdadeiro, de modo que eu era tachado de “machista” justamente quando defendia a tese da superioridade feminina e de que o sexo frágil era o masculino. Hoje compreendo bem o que aconteceu, pois já entendi que as pessoas querem ver a igualdade reinando a qualquer preço. A idéia é necessária, até mesmo se não for verdadeira. Ela interessa mais até mesmo do que a da superioridade feminina, pois essa última não dá um bom destino para a questão da solidão.

Nessa época igualitária, o orgasmo começou a ser visto como tendo características iguais à ejaculação masculina – aliás, passou-se a utilizar o termo “orgasmo” também para os homens, com o que jamais concordei, porque sempre defendi a idéia de que o feminino e o masculino teriam que tentar se definir por si e não usarmos um como referência para o outro. O clitóris passou a ser entendido como uma versão atrofiada do pênis, o que, do ponto de vista embriológico, pode ser verdadeiro, mas não implica que tenhamos que refletir sobre ele tomando por base o que acontece com o pênis. O orgasmo vaginal, entendido por Freud como indício de maturidade feminina, passou a ser malvisto e aquele que se desenvolve no clitóris começou a ser tratado como tendo prioridade e maior importância. Foi a época em que surgiram as revistas femininas recheadas de fotos de homens nus para que as mulheres tivessem deleites visuais iguais aos dos homens; tais revistas foram, de fato, deleite dos homossexuais masculinos, fascinados pelo corpo de homens e portadores do desejo visual típico do gênero.

Assim, o feminismo, apesar de toda a hostilidade e ressentimento que o acompanhavam, tinha em seu contexto, como ingrediente principal, a ideologia igualitária, na qual as mulheres deveriam se espelhar nos homens para melhor se conhecer. O “inimigo” e rival eram também aqueles que deveriam servir de modelo! É difícil imaginar equívoco maior e que só poderia levar a resultados duvidosos e de vida curta. Dele resultou, como importante contribuição, o aspecto relacionado com a igualdade de direitos sociais das mulheres. Contribuiu, junto com os avanços tecnológicos – e mesmo psicológicos que, com todas as dificuldades, andamos fazendo – para a emancipação econômica das mulheres e para uma crescente ocupação, por parte delas, do espaço público. Agora, quanto à compreensão do que acontece no relacionamento entre os sexos e no que se refere ao entendimento que as mulheres gostariam de ter de si mesmas e de sua sexualidade, ainda temos muito a caminhar.

4. Outras peculiaridades do “feminino”
Serão abordados, ainda, dois elementos próprios da biologia feminina e que interferem muito no modo como as mulheres se comportam. O primeiro deles tem a ver com o ciclo menstrual e com as variações hormonais que ocorrem, aproximadamente, a cada 28 dias. Antes, porém, gostaria de lembrar que pertenço a uma geração de médicos que foi formada dentro de uma visão ainda predominantemente masculina, até mesmo no que dizia respeito às questões femininas. Isto é, até há poucas décadas, eram poucas as profissionais da área médica que fossem mulheres. Elas eram franca minoria e suas opiniões valiam pouco até mesmo quando falavam da sua própria condição subjetiva. Por exemplo, algumas das pioneiras da psicanálise eram do sexo feminino e, enquanto pacientes de Freud, travaram feroz polêmica com o mestre que insistia em ensiná-las a se colocar num papel feminino que ele considerava que era próprio e indicador adequado do que ele entendia como maturidade emocional da mulher. O modelo de maturidade feminina era, pois, produzido no interior de um cérebro masculino.

Minha geração se formou envolvida por concepções tipicamente “machistas”, nas quais as cólicas menstruais eram tidas como “manha” – ao menos em boa parte – e a tensão pré-menstrual uma invenção das mulheres com o objetivo de encontrarem justificativa para seus maus gênios e irritações indevidas. As “coisas de mulher” eram tidas como “frescura”, como sintomas histéricos. Elas eram tratadas, sob o aspecto da fisiologia hormonal, da mesma forma que os homens e tudo aquilo que nelas fosse diferente do que eles vivenciavam era desconsiderado e tratado como problema psicológico, imaturidade emocional, falta de firmeza e caráter.

O que estava por trás dessas concepções era a dificuldade humana de entender o outro, e principalmente um outro que é essencialmente diferente de si mesmo. Como os homens não vivenciam alterações hormonais tão substanciais ao longo de cada mês de vida, não foram – e ainda hoje não o são, a não ser com muito esforço – capazes de entender e de dar genuíno peso ao que se passa no íntimo das mulheres. Até os que são portadores de enorme boa vontade e desejo de entender têm dificuldade em penetrar na alma feminina e tentar entender como é que elas sentem as variações do estado físico e como isso interfere sobre o emocional. Como fica sexualmente uma mulher no período da ovulação? Em que isso altera seu estado emocional, sua disposição afetiva? Como é que um homem poderá pensar sobre isso com algum rigor?

É claro que existem obstáculos intransponíveis na comunicação que tentamos estabelecer com outros humanos, especialmente de sexos opostos. As mulheres tentam nos explicar o que sentem, mas nem sempre conseguimos acompanhar a sua descrição. Ao menos já somos capazes de acreditar que existem efetivas mudanças físicas capazes de determinar alterações emocionais derivadas das constantes alternâncias hormonais femininas. Já conseguimos imaginar que os problemas psíquicos usuais no climatério podem estar sendo complicados por fatores orgânicos sobre os quais tentamos interferir através da reposição de hormônios.

Assim, as diferenças entre os sexos não residem apenas na presença da menstruação das mulheres. Ela é a manifestação mais visível de uma série de processos hormonais que não existem nos homens e que fazem a vida das mulheres – ou pelo menos de um grande número delas – mais difícil de ser dirigida de modo firme e consistente para um norte. Sim, porque a presença de tantas variações ao longo das semanas cria dúvidas e instabilidades psíquicas que podem determinar alterações na motivação e no modo como elas pensam sobre seus próprios projetos de vida. Penso que é muito mais difícil para uma mulher se determinar e perseguir com afinco um dado objetivo. Isso torna mais meritório o feito daquelas que conseguem ter sucesso nesse tipo de empreitada. O inverso também é verdadeiro: a falta de consistência e firmeza na perseguição de objetivos não deve ser motivo de tanta perplexidade, uma vez que a alma feminina é, nesse particular, muito prejudicada por sua natureza biológica. Tarefas que exigem estabilidade psíquica e um estado emocional constante e mais racional podem ser muito mais difíceis de serem realizadas por mulheres.

Muito pouco a mais nós, homens, podemos dizer sobre o que acontece dentro das mulheres por força do ciclo hormonal no qual gravitam. Em decorrência de uma postura menos arrogante, é possível saber que existem diferenças substanciais entre os sexos e tentar entender o outro tomando por base o que podemos perceber nele e não a nós mesmos. Portanto, alterações do humor, modificações da disposição sexual, irritabilidade e descontrole agressivo podem ser facilitados, senão totalmente determinados, pelas alterações hormonais. Tais oscilações determinam efeitos variados em cada mulher, de modo que a inexistência de “sintomas” em umas tantas não é indício de falta de consistência na queixa de outras. Somos todos diferentes e as mulheres também o são entre si.

Outra peculiaridade feminina à qual deveremos dedicar nossa atenção diz respeito à maternidade. Nesse caso, nós, homens, sentimos, mais uma vez, uma enorme dificuldade para entender exatamente o que se passa com o corpo e principalmente com a mente de uma criatura que sente crescer dentro de si outro ser. O que significa exatamente a percepção de que uma criatura se move dentro do próprio ventre? Jamais poderemos apreender tudo o que se passa com uma mulher que vive esse estado. Podemos observar, de fora, que as reações psicológicas são muito variadas e que vão desde um certo desconforto pelo fato de ela perceber que está se deformando e ganhando estrias, até o deslumbramento total pela experiência da maternidade, com total descaso por todos esses aspectos pessoais – e mesmo descaso em relação a eventuais reivindicações do marido. Muitas são as mulheres que, ao longo da gestação, perdem totalmente o interesse sexual – será isso determinado por razões hormonais? –, enquanto que outras mantêm aceso o desejo. Elas se tornam distantes dos seus parceiros, uma vez que se sentem mesmo é em simbiose com seus fetos. Outras não se apegam tão intensamente e nem se sentem tão completas pelo fato de terem uma criatura se desenvolvendo dentro de si.

De todo o modo, a partir do parto, cujas dores também são variáveis e não deveriam ser subestimadas pelos homens, surgem muito intensamente as manifestações daquilo que, entre os mamíferos, chamamos de instinto materno, ou seja, um forte impulso na direção de proteger e cuidar do recém-nascido. Surgem o leite e o desejo de alimentar o bebê. Em umas tantas mulheres, não observamos tão claramente esses fenômenos, uma vez que parecem mais preocupadas consigo mesmas do que com seus filhos. Pode ser que em muitos casos esteja acontecendo um quadro depressivo – nada incomum nessa fase da vida e derivada de causas múltiplas e ainda não muito bem conhecidas –, mas em outros, a mulher não parece ser portadora de nenhum instinto de proteção da prole. A questão dos instintos em nossa espécie é sempre muito complexa, uma vez que a razão pode determinar nossas ações de uma forma muito mais definitiva do que os fenômenos inatos que nos fazem parecidos com nossos ancestrais mamíferos. Assim, mulheres muito egoístas têm menos gosto pela amamentação e por todo o tipo de atividade que envolva dedicação, abnegação e sacrifício. Tais criaturas, até mesmo quando estão na condição de mães, vendo que seus bebês são totalmente dependentes, são acomodadas e sempre encontram um jeito para que outras pessoas executem seus afazeres e cuidem de seus filhos.

A maior parte delas, porém, tende a ser muito apegada aos seus filhos, condição que muitas vezes determina irritação e ciúmes nos seus companheiros. É importante que se compreenda que ser mãe é uma empreitada que se inicia em algum ponto de quarto mês de gestação, momento em que a criança dá sinais de existência autônoma ao se mover dentro do ventre. Ser pai é uma condição psicológica que, como regra, se inicia lá pelo quarto mês de vida da criança quando ela sorri para ele, ou seja, quando o reconhece. A idéia de envolver o pai já durante os meses da gravidez parece interessante, mas não acredito que possa deixar de, na prática, redundar em procedimentos um tanto superficiais. Não sabemos se existe algum tipo de comunicação efetiva entre a mente da mãe e a do feto e menos ainda sobre a possibilidade de o pai se comunicar com ele, de modo que conversar com o feto me soa um tanto patético. Não creio que exista nada de instintivo na paternidade, trata-se de um papel aprendido e uma afeição que se estabelece a partir do convívio e das trocas de carinho e de sinais de afeição que costumam crescer com o passar dos meses e dos anos.

É muito importante refletirmos um pouco sobre a questão do instinto materno e da maternidade em geral. Costumamos pensar, já que a isso fomos induzidos pela tradição cultural na qual estamos mergulhados, que a pulsão que faz as mulheres desejarem tanto procriar seja a manifestação do dito instinto. Gostaria de colocar minha opinião contrária a essa idéia: acredito que o instinto materno só se manifesta quando do nascimento da criança e, portanto, não tem relação nenhuma com o desejo de ter um filho. No passado, o instinto responsável pela gestação era o sexual. Ele não pede a gravidez, mas sim intimidade entre um homem e uma mulher da qual sempre resultou, como um “efeito colateral”, a gestação. O forte instinto sexual que possuímos esteve sempre a serviço do prazer e da reprodução. A separação entre sexo e reprodução só se deu muito recentemente, a partir do surgimento dos recursos anticoncepcionais, notadamente daqueles de uso e controle feminino – o surgimento da pílula foi, sem dúvida, um dos fatos marcantes do século XX.

O desejo de ser mãe não é, a meu ver, expressão de natureza instintiva. Trata-se de um prazer pessoal, hoje totalmente desvinculado inclusive de qualquer tipo de necessidade social. Se, no passado, a reprodução era necessária para fins da perpetuação de uma espécie que padecia de muitas adversidades que poderiam facilmente levá-la à extinção, hoje a natureza agradeceria aos casais que decidissem não ter filhos, uma vez que o planeta está superpopulado e com graves problemas ecológicos. Se, no passado, a reprodução estava também muito vinculada aos interesses dos pais, já que os filhos trabalhariam para eles, sobretudo nas áreas rurais, e cuidariam deles nos anos da velhice, nos dias de hoje os jovens casais deveriam perguntar com muita determinação e coragem se querem ou não ter filhos, se estão dispostos a pagar o preço de criá-los para que depois partam convictos de que não devem nada àqueles que os geraram e que cuidaram deles com carinho por tantos anos.

Se formos capazes de pensar para além da tradição, cabem perfeitamente as perguntas: vale a pena ter filhos nos dias de hoje? O que podemos esperar deles no futuro? Qual o sentido, para os humanos, de esforços sem recompensas? Seremos capazes de nos dedicar desinteressadamente a eles sem, de fato, esperar nada em troca? Saberemos deixá-los crescer e ir embora, na busca do seu próprio destino? Como nos comportaremos se eles “saírem” muito diferentes daquilo que sonhamos? Meu intuito, com essa salva de questões de difícil resposta, é mostrar como temos sido levianos em relação a aspectos fundamentais da vida. Inventamos a pílula anticoncepcional – entre outros recursos que nos permitem decidir se e quando teremos filhos –, invertemos, através de aspectos educacionais, os tradicionais elos entre pais e filhos – agora os filhos sentem-se credores vitalícios dos seus pais; portanto, desapareceram as conveniências que nossos ancestrais tinham com a reprodução e nem por isso pensamos seriamente se queremos ou não ter filhos. Apenas cumprimos o ritual de tê-los sem saber ao certo o que estamos fazendo. Os temos porque todo o mundo os tem e, portanto, deve ser bom tê-los. Isso não é modo de pensar. Não é à-toa que tantas pessoas se arrependem de ter filhos mas, como dizia o poeta, só depois de tê-los tido.

Temos que pensar mais profundamente sobre nosso destino se quisermos nos dar bem nessa vida e parar de catalogar as pessoas, mormente aquelas que se comportam de modo diferente do nosso. Quando uma mulher declara que não quer ter filhos porque prefere se dedicar aos seus afazeres profissionais, é rotulada de egoísta. Ora, o que leva a maior parte das mulheres e dos casais a ter filhos senão o egoísmo deles? Como o planeta não necessita da reprodução, as crianças nascem porque os pais querem se ver perpetuados neles, querem um “brinquedo” que os entretenha e que fortaleça o vínculo conjugal, isso quando interesses ainda menos nobres não estão envolvidos no processo reprodutor. As pessoas dizem que a vida é dura e difícil, que é rica em sofrimentos, que a consciência da própria morte é uma dor insuportável e ainda assim concebem um novo sofredor. Geram por deleite próprio e, nos dias de hoje, sem nenhum grande interesse posterior, uma vez que os filhos já entenderam que, ao não terem “pedido para nascer”, em princípio não devem nada aos seus pais.

É preciso aprender a respeitar as pessoas que pensam de modo diferente de nós. Decidir não ter filhos é uma opção digna e não está relacionada com o egoísmo. Não há nenhuma razão para que tantas mulheres se envergonhem de não os terem, como se fossem desprovidas de algum ingrediente instintivo muito nobre. O único motivo que leva uma mulher ou um casal a ter filhos é o que deriva do desejo que sentem de terem crianças por perto para que com elas possam brincar e desfrutar dos prazeres e agruras de acompanhar o seu crescimento. Não se trata de uma função nobre e sim de um prazer pessoal que só deveria ser exercido por pessoas que, de fato, gostam muito de conviver com crianças. Os que decidirem dar outro rumo a suas vidas não têm nada do que se envergonhar e nem podem ser vistos como menos dignos ou privados da nobreza de alma que leva as pessoas à reprodução. O mundo do futuro é o da multiplicidade de opções de modos de vida, sendo desnecessário e inconveniente hierarquizarmos as diversas fórmulas, ou seja, não existem formas melhores ou piores de viver, mas sim diferentes.

5. Em busca do que realmente é o feminino
A essa altura, saímos do domínio do que é mais ou menos conhecido para o que nos é completamente desconhecido. Já somos capazes de descrever algumas das propriedades que caracterizam o feminino, as quais são diferentes das masculinas e que jamais deveriam ser comparadas com elas, pois é um grave erro lógico comparar objetos ou seres que são qualitativamente diferentes. Já pudemos perceber que muitas das peculiaridades consideradas como parte inerente do feminino foram impostas às mulheres através de pressões sociais que tinham como base principal a inveja e a insegurança que os homens sempre sentiram em relação a elas. Jamais deveríamos nos render e acatar com facilidade afirmações do tipo: “ser homem é ser assim” e ” ser mulher é ser assado”; ou, então, que “o homem foi feito para isso” enquanto que “a mulher foi feita para aquilo”.

Temos que nos ater e pensar um pouco sobre o modo como a tradição pesa sobre nós. Parece evidente que concepções antigas, que estejam muito afastadas dos sentimentos humanos atuais, tendem a desaparecer mais ou menos rapidamente. Isso é verdadeiro para a maioria dos casos: não há mais razões para a manutenção da virgindade feminina até o dia do casamento, graças ao surgimento dos anticoncepcionais, e o chamado “tabu da virgindade” deixou de vigorar quase que em seguida. Alguns preceitos tardam muito em se modificar até porque temos forte tendência a nos apegar a velhas idéias. Não nos agradam as novas concepções que nos obrigam a abrir mão dos nossos pontos de vista e rever muitos dos nossos conceitos; não gostamos de mudar de opinião, como se isso implicasse em um trabalho similar ao que temos quando mudamos de casa – e quantos também não gostam de mudanças no plano das coisas concretas? Novas concepções exigem rearranjo em várias outras idéias e, para as pessoas que buscam a coerência, implicam também em mudanças de atitudes. A resistência que sentimos diante do dispêndio de energia que tais mudanças inevitavelmente determinarão, uma espécie de preguiça mental que nos caracteriza, nos leva a posturas conservadoras, a repetir o que aprendemos sem exercermos todo o poder de crítica que nossa inteligência permitiria.

As coisas são mais fáceis quando antevemos vantagens substanciais ao aderirmos a novas concepções, da mesma forma que é mais fácil mudar para uma casa nova mais bonita e mais confortável. Alterações nos padrões sexuais que nos tornaram mais livres e com mais condição para usufruir dos prazeres aí envolvidos aconteceram de forma mais rápida do que aquelas que têm a ver com a igualdade de direitos e de salários das mulheres, condição que não favorece em nada o pensamento masculino tradicional, ao menos à primeira vista. Somos mais rápidos para fazer as mudanças que nos favorecem e tendemos a lentificar aquelas que não nos beneficiam. Assim, nem tudo o que tem durabilidade, que tem persistido ao longo de gerações, constitui sabedoria digna de ser respeitada. Muitos conceitos apenas sobrevivem porque estão a serviço da preservação de privilégios das minorias que detêm o poder social.

Além disso, temos que ter cautela com as “meias-verdades”, com as idéias que podem ter uma certa consistência mas que são usadas para fins escusos. Assim, a afirmação de que as mulheres só são capazes de se realizar sexualmente em um contexto romântico, ao passo que os homens separam perfeitamente o sexo do amor é compatível com o que costumamos observar. Não significa, porém, que estejamos diante de uma verdade biológica. Talvez seja mais adequado dizer que à maioria delas não tem interessado o sexo sem envolvimento amoroso. Aliás, mais preciso ainda seria dizer que elas não desenvolveram o gosto pelo sexo sem seu acoplamento a alguma outra finalidade. Possivelmente, a inexistência de período refratário dificulte que as trocas de carícias ganhem interesse por si só. As mulheres preferem o sexo acoplado ao envolvimento amoroso ou, em certos casos, a interesses práticos bem definidos – como é o caso do dinheiro para aquelas que são prostitutas. As coisas poderão se alterar a qualquer momento e elas poderão perfeitamente passar a vivenciar o sexo como fonte de prazer e não como instrumento para o atingimento de outros objetivos. Creio mesmo que mulheres mais livres e emancipadas, tanto emocional como economicamente, em breve passarão a ter uma outra idéia a respeito das trocas eróticas.

Não estou querendo, em hipótese alguma, entrar pelo caminho feminista de que as mulheres emancipadas gostarão de ser e de fazer tudo aquilo que os homens fazem, até porque não acredito que os homens sejam criaturas mais livres do que elas. O que estou querendo é reafirmar minha idéia de que o que hoje se entende como constituinte do feminino corresponde a um conjunto de conceitos que muitas vezes foram impostos às mulheres em virtude dos interesses masculinos e dentro de um contexto, já descrito, belicoso e hostil. Assim, as mulheres terão que ir atrás de encontrar-se consigo mesmas, usando a si como referenciais e não os masculinos – tradicionais ou atuais. Cabe um outro exemplo: não sei se as que são emancipadas terão em relação ao trabalho a postura que é usual nos homens, nem se irão forçosamente transferir para esse setor da vida toda a vaidade e todo o vigor competitivo que os homens costumam imprimir a ele, nem se isso é obrigatório e parte inexorável do sucesso – isto é, se os que mais competem e se desgastam são sempre os que vão melhor e mais longe – e nem também se as mulheres não irão estabelecer uma relação mais saudável com o trabalho, onde o estresse não seja tão intenso e destrutivo.

Como a vaidade feminina se dirige, em grande parte, para o físico –, o que acredito ser mais saudável, uma vez que a vaidade intelectual só gera malefícios até mesmo à saúde, pois é fato que os homens vivem, em média, sete anos a menos que as mulheres – é possível que o trabalho feminino seja caracterizado essencialmente pela busca de prazer intrínseco e corresponda a uma atividade que redunde em bons resultados para o meio social. Pode ser que isso lhes pareça mais importante do que as ações onde o destaque e o sucesso estejam acima desses valores intrínsecos. Não estou querendo ser retrógrado, mas o prazer que podemos retirar de uma atividade pode, muitas vezes, ser mais importante do que a remuneração e o prestígio nela contidos. As enfermeiras e outras prestadoras de serviço nem sempre muito bem remuneradas, inclusive as professoras, sempre foram, e continuam a ser, criaturas que possuem uma alegria interior e um sentido de realização que muitos profissionais destacados, em áreas onde não existe a clara ação de beneficiar terceiros, não sentem e se ressentem por não senti-lo. É possível que, nessa área, sejam os homens que tenham muito a aprender com as mulheres, sempre encantadas com atividades úteis ainda que repetitivas e monótonas. A riqueza da atividade, para a mulher, sempre esteve relacionada com o prazer em servir, com a dedicação a terceiros, e não com o destaque que o trabalho pudesse determinar. O destaque feminino já acontece por razões sexuais, pelo fato de elas serem atraentes aos olhos dos homens. O trabalho esteve, pois, a serviço de se sentirem úteis e de prestarem serviços de efetivo interesse social.

Na questão do trabalho, como em todas as outras que dizem respeito ao que seja efetivamente o feminino, estamos engatinhando. Já somos capazes de fazer perguntas mais claras, mas ainda não estamos em condições de respondê-las com firmeza. Gostaria de tentar me fazer entender no que penso ser o essencial: acredito que as mulheres buscam, no trabalho, prazeres intrínsecos a ele, ao passo que os homens o vêem como um veículo para o destaque, o sucesso econômico e a melhora de sua posição erótica perante as mulheres. Nada impede que uma mulher, no exercício de sua atividade, se destaque. Digo apenas que a busca do destaque como primeira intenção não é da natureza da maior parte das mulheres, pois buscam isso por caminhos que não passam pelo trabalho. O maior perigo feminino é, a meu ver, o de se tornarem escravas do prazer de servir e perderem a capacidade de pensar e agir em causa própria. O prazer de dar pode se hipertrofiar de modo a se transformar num vício, em algo que determina grande dependência. Quantas mães não se deprimem – e muitas delas se tornam até alcoólatras – quando seus filhos crescem e não precisam mais delas? Aliás, é bem provável que a maternidade seja importante reforçador dessa tendência feminina para servir. Não é à-toa que muitas das que buscam um modo de vida mais voltado para si mesmas, indo ou não atrás do sucesso social típico dos homens, tenham optado por não ter filhos. Conforme já afirmei, não vejo razão para censurá-las e nem chamá-las de egoístas. Talvez tenham tido uma visão mais clara dessa contradição feminina, através da qual parece ser mais fácil agir por si e para si quando a mulher está só, desvencilhada de elos afetivos mais intensos. Digo que se trata de uma contradição porque o desejo de aproximação amorosa, de constituir família e ter filhos também é muito forte na grande maioria delas.

Os homens têm muita dificuldade de entender certos desdobramentos dessa peculiaridade do feminino, através da qual mulheres inteligentes, independentes, auto-suficientes profissionalmente e mesmo competentes para viver sozinhas se tornam, repentinamente, em virtude do envolvimento amoroso, submissas, dóceis, dependentes e dispostas, aparentemente sem nenhuma dor, a abandonar suas carreiras. Não entendem porque jamais agiriam dessa forma, uma vez que, para eles, o trabalho é o meio pelo qual se sentem interessantes aos olhos femininos e perderem a posição social é o mesmo que perder a admiração e o amor das mulheres. Estas, por sua vez, sentem de forma completamente diferente: não acham que são amadas pelos seus méritos profissionais, muitas sentem exatamente o contrário: que o sucesso profissional afasta os homens delas. Acreditam que possam ser amadas por seus dotes físicos, pelas virtudes de caráter e pela capacidade de servir aos homens e aos filhos. Sabem que o trabalho não lhes será tão vital porque não interfere na questão da vaidade, que podem voltar a trabalhar em outro momento e não pensam que deixarão de ser amadas por terem optado pela vida em família.

Muitas ainda sentem que fazem isso em virtude das pressões masculinas, o que pode apenas ser uma coincidência: a pouca capacidade para conciliar o trabalho pessoal com a vida amorosa é uma peculiaridade do feminino. Podemos comprovar isso, de um modo cada vez mais fácil, nos dias de hoje, uma vez que cresce o número de homens que não mais se aborrecem pelo fato de suas mulheres se dedicarem a uma atividade profissional própria. Ao contrário, muitos ficam perplexos e até mesmo um tanto entristecidos por causa da atitude de suas mulheres de abandonar seus afazeres. Eles sentem sua vaidade exaltada pelo fato de estarem unidos a mulheres bem-sucedidas profissionalmente, de modo que, desse ponto de vista, passaram a gostar de exibi-las não só como atraentes, mas também como criaturas que vão bem no mundo do trabalho. Não creio que esse seja um bom motivo para que elas se dediquem mais ao trabalho fora de casa, nem que elas devam abandonar suas atividades de forma tão rápida e leviana, uma vez que muitas irão se arrepender ao longo dos anos seguintes. Voltar ao mercado de trabalho sempre será uma tarefa difícil, além de esbarrar, aí sim, com obstáculos familiares, uma vez que maridos e filhos se acostumaram a ser servidos e a tê-las à sua disposição. Subtrair privilégios é uma tarefa muito difícil.

Quando sozinhas, costumam se dar muito melhor do que os homens; são muito mais independentes e conseguem gerir suas questões concretas sem nenhuma dificuldade. Um fato curioso é que, ao se envolverem sentimentalmente, tendem a desenvolver imediata dependência prática em relação aos seus amados. Insisto em afirmar que não é essa a expectativa masculina; isso causa uma certa decepção na maioria dos homens que optaram por se unir com mulheres independentes. É intensa a tendência delas no sentido da descaracterização e despersonalização de si mesmas no curso do fenômeno amoroso. Mulheres independentes passam a preferir que seus companheiros ditem as regras, que assumam todas as responsabilidades. Abrem mão até mesmo do gerenciamento de questões que lhes são essenciais, como é o caso da reprodução. Como podemos entender que uma mulher inteligente seja a favor de uma “pílula do homem”, condição na qual a responsabilidade por uma futura gestação sai de suas mãos? Penso que tais peculiaridades terão que ser melhor entendidas; para elas, não encontro nem mesmo hipóteses que possam iniciar a tarefa de reflexão.

Faremos um grande avanço no entendimento do que seja o feminino se pudermos compreender melhor a relação das mulheres com a maternidade, cujas observações iniciais tentei esboçar no capítulo anterior. Por que a grande maioria delas continua a desejar tanto ter filhos? É preciso pensar sobre esse assunto e não simplesmente dar a ele respostas óbvias. Ter ou não filhos define dois caminhos muito distintos para as mulheres, uma vez que a maternidade implica, para aquelas moralmente mais bem formadas, em pesados sacrifícios no que diz respeito aos projetos pessoais. Como já têm, segundo penso, uma dificuldade maior para dar um sentido, definir uma meta para suas vidas, acabam por ter que renunciar aos seus já frouxos projetos em virtude de se tornarem mães. Isso não seria triste se não se arrependessem mais tarde, se não se sentissem prejudicadas nos objetivos pessoais que tantas defendem com tão pouca ênfase. Ter um filho implica em uma série de gratificações, satisfações e também em muitas limitações, que sempre serão maiores para as mulheres do que para os homens. Assim, jamais deveriam ter um filho com a intenção de agradar – e muito menos de prender – o homem. O ônus acabará sendo dela e o compromisso derivado de ter gerado uma vida é sério, de modo que não pode ser abandonado em caso de arrependimento.

Como elas têm, certamente por várias razões além das que registrei acima, maior dificuldade de dar um rumo firme à sua vida individual, acabam por se “diluir” e por “aderir” ao projeto dos homens com quem estão vivendo. A idéia é interessante e pode fazer com que o par se una mais intensamente, agora também em busca de objetivos em comum. Só que muitas são as vezes em que a aliança amorosa se rompe, condição na qual as mulheres se ressentem duplamente: perdem o parceiro e também o projeto de vida! Além do mais, não é impossível que os homens façam, de repente, alterações nos seus projetos e que tais mudanças não estejam de acordo com os pontos de vista das suas mulheres. O que fazer? Como continuar a apoiar um projeto com o qual não concordam? Situações difíceis desse tipo poderiam muito bem não existir se elas tivessem construído projetos individuais.

É claro que a existência de tais projetos limitam suas possibilidades afetivas, uma vez que a falta de rumo permite o acoplamento, ao menos teoricamente, a um sem-número de parceiros. É como se a mulher se mantivesse indiferenciada, esperando para saber quem será o seu companheiro; a partir daí, irá se definir em função dele. A razão disso seria a ênfase dada ao amor, prioridade sobre o projeto e a realização individual. Talvez exista também um medo relacionado com a postura inversa: mulheres muito determinadas profissionalmente seriam menos interessantes para os homens, de modo que o medo da solidão seria importante fator da indefinição pessoal feminina. Não existe situação similar na psicologia masculina. Ao contrário, os homens temem não serem interessantes para as mulheres exatamente quando não são muito definidos e bem-sucedidos no mundo do trabalho, que aqui está sendo tratado como sinônimo de projeto pessoal.

Na prática, as possibilidades afetivas já são limitadas para todos nós. Isso se considerarmos que os pares que pretendam viver em concórdia deverão ter afinidades cotidianas de todos os tipos, além de postura ética e projetos convergentes. Assim, de nada serve essa indiferenciação que as mulheres se impõem com o propósito de ampliar o “mercado matrimonial”. Poderão se casar com maior facilidade, mas o mesmo acontecerá com o divórcio. Sim, porque os verdadeiros pontos de vista e os anseios das mulheres irão querer se externar, de modo que, mais dia, menos dia, surgirá o conflito entre o desejo amoroso de fusão com o amado e o desejo de ser um indivíduo com projeto pessoal definido. Seria interessante que as mulheres pensassem nisso desde o início de suas vidas adultas, de modo a não imaginarem que o amor realmente suporta tamanha renúncia; e mesmo que isso seja verdadeiro em alguns casos, é provável que acabem por se revoltar contra o que elas mesmas aceitaram. É evidente que seria mais interessante que uma mulher que tenha escolhido uma determinada rota para sua vida venha a se vincular com um homem que tenha optado por um rumo compatível e vice-versa. Ou seja, é possível que, no futuro, não venhamos a nos vincular apenas porque nos amamos, mas também por pretendermos viver o mesmo tipo de vida e atingir os mesmos objetivos.

Acredito firmemente que todo o ser humano tem que se empenhar com mais vigor exatamente naqueles setores de sua subjetividade onde residem suas maiores dificuldades. A questão do trabalho e do encontro de um rumo definido e pessoal costuma estar associada, para a maior parte das mulheres, a grandes tensões e a terríveis contradições internas. Assim, é justamente nessa direção que a atenção feminina deveria se dirigir com grande firmeza, sempre visando superar as limitações que não creio serem definitivas. Entre amor e individualidade deveremos encontrar um modo de ficarmos com os dois. Não há escolha estável entre duas condições que ansiamos muito. É urgente, pois, que as mulheres deixem de ver o amor como prioridade sobre o fato de poderem ser elas mesmas e existirem como indivíduos além de serem membros de um par. E mais: a forma de ela exercer sua individualidade não deverá ser idêntico ao do homem e tampouco terá que ser igual a relação dos dois sexos com o trabalho. A busca do que seja o modo de ser – e de participar da vida – genuinamente feminino é tarefa que somente elas poderão cumprir. Quando soubermos melhor o que é que efetivamente desejam para si, tanto elas serão mais felizes como estará bem encaminhada a melhoria das relações entre os sexos. Estar bem consigo mesmo é requisito indispensável para o estabelecimento de relacionamentos menos agressivos e mais consistentes.

Ao tratar da questão da identidade, no caso, a feminina, insisto sempre em ser prolixo a respeito do trabalho, porque ele compõe, junto com o amor e as complexas peculiaridades de nossa sexualidade, o tripé básico da nossa vida íntima. Existem inúmeros outros aspectos que poderiam ser abordados e que são também de grande importância, mas que não cabem no contexto desse ensaio. O mais comum é que as pessoas dêem um rumo para suas vidas através do trabalho, entendido como atividade produtiva e útil para a comunidade. Na verdade, não é exatamente só a isso que estou tentando me referir. Penso em qualquer tipo de atividade que ajude a pessoa a evoluir, a conhecer melhor a si mesmo e à vida, a se posicionar com mais sabedoria, constância e serenidade diante dos novos desafios, a ter uma postura e ser uma criatura coerente, com começo, meio e fim que combinem entre si. Penso em criaturas que, movidas por qualquer tipo de atividade que as satisfaça e engrandeça, tenham uma relação com o dinheiro, com a aparência física, com as relações sociais, com a sexualidade e com o amor que se encadeiem entre si de modo a que um aspecto não se choque com o outro. Penso em criaturas cuja maneira de se postar perante os outros indivíduos indique o que elas realmente são e como pensam. Penso em mulheres livres.

Aquelas que conseguirem avançar mais na direção do autoconhecimento serão as que poderão alterar o modo como lidam com sua sexualidade. Não posso deixar de registrar a importância que atribuo ao fim da instrumentalização do poder sensual feminino para que as mulheres possam se encontrar consigo mesmas e o quanto acredito que isso seja necessário para a melhora das relações entre os sexos, para o surgimento de relações de efetiva amizade entre homens e mulheres e para o avanço global da humanidade. Não consigo vislumbrar nenhum caminho evolutivo que não passe pelo fim da guerra entre os sexos, que não passe pela redução da ambição masculina de se destacar socialmente a qualquer custo para impressionar as mulheres e que não passe pela redução do exibicionismo erótico feminino que objetiva apenas provocar o desejo masculino. Não acredito que a situação que estamos vivendo esteja fazendo alguém feliz, nem os homens e nem as mulheres, posto que essa guerra, além de acirrar ódios, aumenta a dependência recíproca em todos os sentidos.

Um bom indício de independência seria dado por uma postura que nos leve a tratar tanto o feminino como o masculino com autonomia e sem comparações inúteis. Quanto à sexualidade, isso é fundamental até mesmo porque as diferenças biológicas são marcantes e muito importantes. Não tem sentido que as mulheres comecem a se preocupar, de modo exagerado, com sua performance sexual apenas porque é essa a tendência masculina. Na realidade, o interessante seria conseguirmos limitar tal preocupação em todos, uma vez que o sexo terá que ser entendido em sua essência: uma simples e agradável troca de carícias capaz de desencadear um tipo peculiar de desequilíbrio homeostático, qual seja, a excitação. A preocupação com o desempenho cresceu nos homens em virtude de vários fatores, principalmente relacionados com a noção de que a competência sexual seria um dos importantes ingredientes da honra masculina. Nada disso é parte integrante do feminino, de modo que não cabe mais esse peso sobre as costas das mulheres justamente quando é tempo de tirá-lo das dos homens.

Não cabe igualmente a preocupação obsessiva com o orgasmo feminino, que nasceu no interior da mente masculina sempre preocupada em se mostrar competente nessa área. Saber conduzir a mulher ao orgasmo passou a ser mais um elemento da eficiência sexual masculina, de sorte que passaram a se preocupar com o prazer feminino apenas por causa da sua vaidade. É possível que tal preocupação tenha tirado a espontaneidade e a naturalidade de muitas mulheres, para quem o orgasmo chegava ou não de modo natural. Em virtude da inexistência de período refratário, acredito que a preocupação com o orgasmo era menor nas mulheres do que os homens imaginavam; isso porque não vem acompanhado da sensação de saciedade que os homens sentem quando ejaculam e que imaginam acontecer igual com as mulheres. Assim, é possível que elas jamais tenham se sentido incompetentes, frias ou inadequadas por terem orgasmo em algumas relações e não em outras. À medida que isso foi se tornando inadmissível para os homens, passou a ser tema de preocupação também para elas. Começaram a se sentir incompetentes, doentes mesmo, por não terem orgasmo, especialmente durante a penetração vaginal. Sabemos que a inervação vaginal não é muito farta e que o órgão talvez tenha uma função reprodutora maior do que aquela relacionada com o prazer erótico. Ainda assim, por vários anos as mulheres, agora preocupadas com o orgasmo, se sentiram incompetentes por não atingi-lo com a facilidade esperada pelos homens – e depois por elas mesmas.

Mais recentemente, um relatório pouco relevante do ponto de vista científico – o da Sra. Hite – conseguiu alterar o panorama, uma vez que teve sucesso em dar dignidade ao orgasmo atingido através da estimulação do clitóris, que sempre foi o foco dos estímulos tácteis das mulheres que se masturbam. O número das que se queixam sobre a frigidez diminuiu sensivelmente, posto que os homens aceitaram o orgasmo clitoridiano como suficiente para a sua vaidade, apesar de eles sempre preferirem o que se atinge na penetração vaginal. Insisto na urgência de alterarmos tais procedimentos e que o orgasmo volte a ser problema feminino e não um requisito da vaidade masculina. O orgasmo é propriedade da mulher e não objeto de deleite do homem. É sempre bom lembrar que elas dispõem de meios para fingir e atuar de acordo com o que não estão sentindo; assim, homens inteligentes não deveriam se atrever a pensar que sempre serão capazes de distinguir entre o que é um verdadeiro e um falso orgasmo; o melhor mesmo é deixarem de se preocupar tanto com o assunto.

Muitas das dificuldades sexuais femininas estiveram relacionadas com os desdobramentos da confusão descrita acima. Muitas mulheres se achavam frígidas porque não tinham orgasmo na penetração vaginal e passaram a se desinteressar do sexo por se reconhecerem pouco competentes para o tema. Outras fingiam com seus parceiros e se masturbavam estimulando o clitóris; outras, ainda, usaram a dificuldade que sentiam para rejeitar e humilhar com mais firmeza seus parceiros grosseiros. Preferiram, assim, se dedicar mais aos prazeres exibicionistas capazes de lhes despertar tão intensamente a excitação erótica típica da vaidade, além do prazer de sentirem os homens em suas mãos. Perceberam que isso lhes agradava mais do que as trocas de carícias, de modo que se transformaram em criaturas muito atraentes mas que não estão disponíveis à aproximação masculina; são as que mais dramaticamente instrumentalizaram o poder sensual, de modo a obter vantagens de todo o tipo em virtude de conseguirem ativar o sonho de muitos homens de que, um dia, irão poder se aproximar delas.

Ninguém está ganhando essa guerra. Caem mortos combatentes de ambos os lados. Os homens, agredidos por provocações eróticas femininas, se tornam grosseiros e violentos, o que atiça ainda mais as mulheres contra eles – e que é, sem dúvida, uma importante causa de bloqueio erótico feminino, o qual aumenta ainda mais a tendência exibicionista. Ninguém se entende, ninguém vai atrás dos seus próprios ideais. Todos estão mais voltados para o sexo oposto do que para si mesmo. Não será em um contexto desse tipo que poderemos nos deparar com o que é verdadeiramente o feminino. É preciso desativar a guerra entre os sexos para que os homens e as mulheres possam olhar para dentro de suas almas e perguntar: “Quem sou eu”? “O que quero para mim”? “Quais são os meus verdadeiros anseios e minhas efetivas necessidades”? “Como posso me posicionar para me aproximar do ideal de felicidade que eu mesmo criei para mim”?

Essas e tantas outras questões só poderão começar a ser respondidas de modo consistente e de uma forma individual, respeitadora das peculidaridades de cada criatura, quando formos capazes de desatar os nós e de desfazer as confusões e tumultos que hoje unem – se é que se pode usar essa palavra – os homens e as mulheres. O caminho é longo e os obstáculos não devem ser subestimados, como tantas vezes costumamos fazer quando criamos proposições simplistas e demagógicas. Mas já não é sem um bom atraso que estamos iniciando esse percurso; e ele começa pela tentativa de conhecer melhor o emaranhado que tanto tem nos prejudicado.

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  • antonio

    De um modo geral, penso que nem os homens e nem as mulheres perceberam ainda a importância do desapego de sua vaidade para coexistir em equilíbrio e satisfação mútua. Mas a tentativa, ainda que por vias tortas, de fugir de papéis convenientemente estruturados ao longo dos anos já é digna de louvor. Lendo seu artigo, concluí que o desapego da vaidade é talvez o maior passo para começarmos a amar nossas diferenças, ao invés de estupidamente tentar sempre reduzí-las.

  • flaviogikovate

    Sobre o feminino nunca escrevi nada a mais. Sobre a escolha de parceiros, acho
    que o melhor livro é “O Mal, O Bem e Mais Além”. abraços

  • flaviogikovate

    Meu caro, respeito seu ponto de vista, mas não aceito que você
    considere o meu como sem fundamentação. Sugiro a leitura do meu livro “Homem: O
    Sexo Frágil?”
    Abraço

  • Camila

    Muitas reflexões incríveis! Ajuda a entender o sexo oposto e a si mesmo também.

    Não sou especialista no assunto, mas gosto muito de ler, observar e estudar o comportamento humano. Sendo assim, me permite uma pergunta Dr. Gikovate: é possível que algumas mulheres, principalmente aquelas que são mais ativas, tem em sua natureza a iniciativa no sexo, desejarem visualmente homens? O que eu captei, é que o desejo feminino passa por uma compilação de fatores, sendo que a beleza e o status tem grande influência sobre as escolhas de um parceiro sexual. Acredito eu, que atração física é importante tanto para os homens, quanto para as mulheres, apesar dos homens darem mais valor a isso por serem visualmente mais sensíveis.
    Enfim, vivemos um tempo em que somos bombardeados de estímulos visuais. Olhamos
    tudo, fotografamos tudo, consumimos imagem, incluindo a imagem do
    outro. Hoje em dia as mulheres consomem pornografia (embora aleguem que gostariam de um olhar mais feminino nos filmes), entram em sites com fotos de homens nús e tomam a iniciativa no sexo. Se isso é da essência do feminino, não sei, mas são coisas que podem ser aprendidas e usadas para o prazer também..

  • Lindalva Lopes

    Toda essa construção “misândrica”, como você afirma, foi realizada pelos próprios homens, pois são eles que hegemonicamente dominam os meios de produção, a construção das leis. Mães, professoras, auxiliares de creches não têm esse poder, pois sempre as decisões ficaram à mercê dos homens. Dizer que as mulheres são privilegiadas é olhar por apenas um lado, nem homens são privilegiados. Não devemos fazer divisões de privilégios por gênero, e sim, por classes sociais. Assistindo a um vídeo sobre o Afeganistão, pude perceber, que apesar de toda opressão contra as mulheres, os homens também são vítimas, talvez em uma escala um pouco menor, vi meninos empobrecidos, homens sofridos, obrigados por um sistema religioso arbitrário a oprimir e destruir suas mulheres, mas isso indiretamente, também os oprime. Por isso temos que deixar de observar as injustiças e mazelas por uma visão meramente de gênero e sexo, viveremos nessa eterna troca de acusações, como seres humanos que somos, antes de homem ou mulher, temos que buscar construir uma sociedade mais justa para todos. Os próprios homens quando veem mulheres injustiçadas pela sua condição feminina se revoltam, pois são pais, irmãos, avôs de pessoas do sexo feminino, o mesmo ocorre com mulheres de bom senso, embora dificilmente alguém seja questionado profissionalmente pelo fato de ser homem. Você jamais vai ouvir: _ Não vou nesse médico não, não confio nele, pois é um homem. Todavia, no tocante às mulheres é muito comum comentários como esses. Inclusive, um homem fez um escândalo danado em um avião, quando descobriu que era uma comandante que dirigia a aeronave. Há muito mais tabus para serem quebrados do lado feminino. Todavia homens e mulheres precisam se unir, pois somos partes de um todo social, e não queremos injustiças, simplesmente, por um ser possuir órgãos reprodutores diferentes, hormônios, e uma diferença física mínima, que em alguns casos até desaparece.