Ser, Ter, Parecer, Aparecer

Por em 12/01/2015

Em 1976, Erich Fromm publicou um livro cujo título, “Ter ou Ser”, indicava que estava em curso uma mudança fundamental. As alterações nos valores culturais acompanham, em geral com certo atraso, as que acontecem no plano dos avanços da tecnologia – especialmente quando eles estão diretamente ligados ao cotidiano da maioria dos cidadãos. Nosso “habitat” vem mudando drasticamente principalmente a partir da II Grande Guerra. Nós, humanos, interferimos continuadamente sobre o ambiente que nos cerca; depois temos que nos adaptar às mudanças que nós mesmos provocamos. Por vezes, levamos um susto com o que nos acontece, como se não fôssemos nós os causadores de tudo!

Até os anos 1960, os valores que as pessoas mais prezavam eram a integridade moral, o conhecimento, as boas e sólidas relações de amizade, a competência para o exercício de uma atividade socialmente útil. Em uma frase, os valores mais relevantes tinham a ver com o conteúdo das pessoas mais do que com a aparência delas. O indivíduo se orgulhava de ser professor, médico, empresário… Era o tempo em que o “ser” valia mais que tudo, mais do que a remuneração que se obtinha em decorrência da atividade que se exercia.

A partir dos anos 1970, os critérios de valor começaram a se alterar e o pêndulo se voltou essencialmente na direção do que se consegue “ter”, ou seja, o que mais se passou a valorizar foi o montante que se ganha e quais os bens que podem ser adquiridos com esse dinheiro. As marcas de grife ganharam fama enorme e se tornaram cada vez mais conhecidas de todos. A maior parte das pessoas passou a desejá-las com vigor: o uso de uma determinada bolsa e de certas marcas de relógio passou a indicar a importância e a posição social de quem os possui. Tornaram-se fonte de respeitabilidade.

A remuneração que se obtém passou a ser mais importante do que as aptidões necessárias para o exercício de uma dada atividade. Ser rico tornou-se muito mais relevante do que ser culto, produtivo ou mesmo honesto. É claro que foram muitos os que conseguiram unir todas as propriedades e enriqueceram em decorrência do exercício de atividades produtivas que exigem sofisticação intelectual e mesmo integridade moral. Porém, passaram a chamar a atenção e atrair a admiração mais pelo que tinham do que por aquilo que eram.

Numa época em que ser o possuidor de um dado modelo de relógio (ou de bolsa, para citar apenas os símbolos mais expressivos das mudanças nos valores que temos acompanhado) significava ter uma determinada posição econômica, os concorrentes menos valorizados começaram a produzir exemplares que imitavam as propriedades do original. Os que não podiam comprar o relógio mais cobiçado não tinham alternativa senão se contentar com as imitações que, à distância, não eram tão facilmente diferenciadas. Assim, entramos numa nova era, na qual o importante é “parecer” que se possui a riqueza necessária para a posse dos bens materiais agora valorizados acima de tudo. Depois dos relógios mais em conta e que imitavam os mais desejados vieram os falsificados, cópias baratas e de má qualidade, mas ainda assim usados por um bom número de pessoas e que foram capazes de enganar a um bom número de pessoas mais desavisadas. De repente, não importa mais nem ser e nem mesmo ter: apenas parecer!

Na última década fomos introduzidos, via internet, às redes sociais, ao universo novo dos contatos virtuais. Se, na fase em que o ter passou a prevalecer sobre o ser, pudemos observar um enorme crescimento do exibicionismo físico (na “era” do ser também havia certo exibicionismo intelectual, porém mais sutil e discreto), agora as pessoas passaram a querer  mais que tudo “aparecer”. Elas postam fotos suas nas mais diversas situações, todas elas encantadoras e dignas de provocar a inveja de seus “amigos”, que “curtem” o que veem com toda a hipocrisia própria dos que se empenham em disfarçar seus reais sentimentos.

Temos caminhado cada vez mais na direção da superficialidade, saindo do “miolo” para a “casca”. Agora a ocupação principal de muita gente é a de exibir uma imagem encantadora de si mesma, sendo que a veracidade daquilo que se exibe interessa cada vez menos. O importante é provocar suspiros de admiração nos interlocutores cada vez mais distantes e menos relevantes.

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  • Eric Milaneze

    Ótimo texto (não parece, é).

  • José Mendes

    infelizmente a sociedade valoriza mais o “parecer” do que o “ser”…
    excelente texto, parabéns.

  • Margo

    Ótimo texto! Dr.Gikovate mais uma vez fantástico com suas palavras!

  • Bárbara Thaís

    Parabéns! Dr. Gikovate, obrigada pelas sábias palavras. Grande abraço

  • John

    Discussão bastante superficial e enviesada, parece um saudosismo de uma era de ouro que nunca existiu. Antigamente o que contava não era o “ser” como uma coisa boa, mas sim o “de onde viemos”. Você era da família tal, filho de fulano e seu destino era morrer no mesmo lugar onde nasceu, respeitando regras que se impunham a você. Muito bonito se orgulhar de se “professor, médico e empresário”, mas a que parcela da população isso era permitido? Essas pessoas que hoje compram relógios falsos, antes não podiam fazer nem isso, morriam miseráveis e invisíveis. Hoje há espaço pra mudança. É bem verdade que as pessoas não sabem muito bem o que fazer com isso e acabam se “travestindo”, se enchendo de coisas pra tentar ser outra pessoa e isso é ruim. Mas, pelo menos hoje elas podem sonhar em ser outra pessoa, ao contrário do passado glorificado pelo autor.

    • Aline

      As classes baixas também almejavam o Ser. Mesmo sem condições, desejavam isso para seus filhos “Meu filho vai ser Dr. Advogado!”. O Ser era referência, isso não quer dizer que o “de onde viemos” não fosse para alguns. Mas o Ser era o que prevalecia. O Ser era usado para causar inveja mesmo quando ele não era parte de quem fazia a inveja “Minha filha casou com um Médico…”.

    • Serra de Gavinhos

      Se fosse como está descrevendo, nada teria mudado. As oportunidades foram aparecendo, ouve evolução econômica e social, mas os valores éticos e morais degradaram-se.

      • John

        Não entendi a a conexão lógica entre os termos das primeira parte do seu comentário. Quanto aos valores morais, antigamente era normal ter escravos, mulheres não podiam trabalhar, homossexuais tinha de ficar escondidos, não se podia questionar autoridades mesmo se elas estivessem erradas… acho que melhorou bastante coisa, mesmo que algumas tenham piorado.

    • Rafael

      Prezado John (sic), o primeiro ponto de inflexão referido pelo autor, na esteira de Erich Fromm, ocorreu na década de 60. O capitalismo já estava consolidado há mais de 3 séculos, e a ilusão de ascensão social já era alardeada pela burguesia. Deve ter havido algum engano cognitivo na sua leitura, porque essa antiguidade a que você se refere não é a mesma sobre a qual o autor está discorrendo.

    • Isabella

      – “Mas, pelo menos hoje elas podem sonhar em ser outra pessoa (…)”
      Há mto a aprender e amadurecer.

  • Julio Mattos

    A impressão social e cultural influenciando e produzindo apartheids como os Winners and Losers, Ser X Ter.estes….associados ao ingrediente egoísmo…ainda oportuniza sérios danos a compreensão de felicidade e bem estar na sociedade contemporânea….o texto …auxilia …ao ser humano a refletir suas escolhas….Parabéns pelo texto Dr Flávio ….
    Que o Autor da Existência….assim creio….continue o mantendo a escalada para a quarta idade produtiva….outro desafio para o contemporâneo.
    Abraço.

  • Najwa El-Deek

    Não notei nenhum saudosismo de outras décadas, como descrito em outras opiniões, e sim uma comparação de como as coisas foram acontecendo, quais os graus de importância, ao longo de alguns períodos, sobre os pensamentos entre ser, ter, parecer e aparecer que, para mim, foram muito bem colocados, basta observar como vivemos hoje.Ele cita a partir dos anos 1960 e até aqui, me parece que a escravidão (me refiro a dos negros e não a escravidão sócio-econômica que nosso país ainda vive de forma velada…) já não mais existia.O individualismo e o egoísmo estão pulverizados na sociedade atual, basta entrar em qualquer rede social e veremos a vida social e particular que cada um exposta de maneira agressiva que, ouso ressaltar, o objetivo principal é ser admirado e invejado pelos demais, em sua grande maioria…

  • SOPHIA

    Texto extremamente LÚCIDO,eu diria mesmo PERFEITO;uma abordagem clara,sem rodeios e incontestável acerca da realidade/”fake life” atual.
    Parabéns e obrigada!

  • Selín

    Muito bom texto. <> Triste realidade a descrita… estamos preocupados por “aparecer”.
    Obrigado Dr. Gikovate!

  • Luis Alberto

    Há quem passe pelo bosque e SÓ veja lenha para fogueira. (tolstói) … e é assim que muitos interpretam … estão errados? … absolutamente. . Mas, aproveitando pra reforçar, existe uma frase muito real que diz: Gosto nao se discute ……………………………… ”bom gosto” sim.