Sexo, amor, erotismo e pornografia

SEXO E AMOR SÃO COISAS DIFERENTES
O fato de o sexo e de o amor andarem juntos em um grande número de ocasiões não significa que sejam a mesma coisa. Tampouco significa que sejam manifestações distintas de um mesmo instinto – termo usado para designar impulsos que nascem espontaneamente dentro de nós Esta última idéia foi defendida por Freud, o genial médico de Viena que, no inicio do século XX lançou as bases de uma nova ciência, à qual denominou psicanálise.

A idéia de que sexo e amor sejam a mesma coisa causou grande confusão na época em que foi lançada, sendo responsável por grande parte da oposição inicial que a psicanálise sofreu. Dizer, por exemplo, que um menino de 7 anos sente desejo sexual por sua mãe pareceu chocante e, ao mesmo tempo, duvidoso. Atualmente, ninguém duvida que um menino dessa idade é extremamente ligado sentimentalmente a sua mãe. É bom que se saiba, também, que a confusão era generalizada na maneira de pensar das pessoas daquela época; é exemplo disso a atitude que os pais tinham com seus filhos do sexo masculino: não os beijavam e nem eram muito carinhosos com eles por medo de estarem contaminando-os com desejos homossexuais. Essa atitude só começou a se modificar de uns trinta anos para cá, quando as pessoas passaram a perceber que ternura é bastante diferente de tesão.

Eu costumo fazer a seguinte comparação: sexo e amor são como arroz e feijão – andam juntos com freqüência, combinam muito bem, mas são coisas bem diferentes. O amor é um desejo forte que temos por aconchego. O amor busca a sensação de paz e harmonia que sentimos quando estamos junto de uma pessoa muito especial que “elegemos” como o nosso ser amado. Nos primeiros anos de vida, esse objeto do amor é a própria mãe. Com o passar dos anos, nos desligamos dela e buscamos outra pessoa para ser o nosso par na aventura romântica. Uma vez escolhido, só serve aquele parceiro. Sua substituição é possível, mas lenta e dolorosa.

O sexo é um impulso que se manifesta pela primeira vez no fim do primeiro ano de vida. É o momento em que a criança começa a perceber com mais clareza que não está “grudada” na sua mãe, que não é uma parte dela. Começa a perceber a sua individualidade, e passa a pesquisar-se. É o período em que a criança, ao se tocar inteira, percebe que as sensações variam conforme a parte do corpo que é tocada. Percebe bem claramente que a região correspondente aos órgãos genitais provoca uma sensação muito especial, uma inquietação agradável, à qual chamamos de excitação sexual. É muito importante perceber que as primeiras sensações de natureza sexual se dão quando a criança, sozinha, está pesquisando o seu corpo. Trata-se, pois, de um fenômeno pessoal, individual, e que foi denominado “auto-erótico” por essa razão. Diferentemente do amor, que sempre envolve outra pessoa, o sexo é, nas primeiras descobertas infantis, uma manifestação individual.

Eu costumo fazer a seguinte comparação: sexo e amor são como arroz e feijão – andam juntos com freqüência, combinam muito bem, mas são coisas bem diferentes.

Podemos dizer, portanto, que existem duas grandes diferenças entre o fenômeno amoroso e o sexual. A primeira diferença é que o amor é paz e harmonia, ao passo que o sexo é excitação, tensão. A segunda diferença é que a paz derivada do amor depende sempre da existência de uma outra pessoa, o objeto específico do nosso sentimento; por sua vez, o sexo é um processo pessoal, auto-erótico e, ao menos na infância, totalmente independente de um objeto específico.

Na vida adulta, o sexo e o amor com freqüência andam juntos. Quando isso acontece, é claro que a pessoa que é objeto do nosso amor tende a se transformar naquela criatura com a qual queremos trocar carícias eróticas. A separação entre amor e sexo torna-se difícil de ser observada, derivando dai as confusões feitas pelos primeiros pesquisadores dos fenômenos psíquicos, tão essenciais ao entendimento de nós mesmos.

A VIDA SOCIAL IMPÕE LIMITES AO HOMEM
Freud acreditava, diferentemente do que tenho defendido, que o amor era uma manifestação sofisticada, mais intelectualizada, do impulso sexual. Ele chamava esses processos de sublimação, ou seja, a transformação de um impulso mais grosseiro em algo mais sublime, mais especial. Essa transformação era o efeito da nossa razão sobre o fenômeno mais físico, mais animal, da sexualidade. Eu costumo dizer que nós somos criaturas especiais, dotadas de características próprias dos macacos. Porém, temos um “computador”, que é a nossa razão, que nos faz criaturas especiais e únicas. Os impulsos do “macaco”, depois de modificados pelo “computador”, tornam-se mais requintados; transformam-se em produtos sublimados.

A verdadeira história da evolução da nossa espécie e a passagem de um modo de vida primitivo, nômade, para as organizações sociais complexas em que vivemos hoje ainda estão longe de ser conhecidas. A verdade é que foi uma história difícil, cheia de sofrimentos internos e externos. Os sofrimentos externos derivaram do fato de que a Terra não era um local tão apropriado para a nossa espécie. Tivemos de aprender a nos defender dos outros animais, do frio rigoroso, da escassez de alimentos etc. Se hoje temos casas confortáveis, alimentos preservados para consumo durante o inverno e condições objetivas de combate às doenças e às dores, essas são as conquistas das quais podemos nos orgulhar. O planeta está muito mais adequado às necessidades humanas do que a selva original que aqui encontramos.

Para conseguirmos avançar na conquista do meio externo, tivemos de nos agrupar em núcleos sociais cada vez mais complexos e organizados. Esses grupos impuseram severas limitações à expressão da nossa natureza instintiva, ou seja, nossa natureza mais animal. Muitos dos desejos que surgiram e ainda surgem espontaneamente, graças à nossa biologia, tiveram de ser proibidos. A palavra que se usa em psicologia para isso é repressão.

A repressão, quando muito forte, tira o desejo até da nossa consciência e cria, assim, uma outra parte da nossa subjetividade, que é chamada de inconsciente. O inconsciente contém os desejos que a nossa razão consciente não aceita. E não aceita por causa da repressão, que inicialmente é externa – social – e depois se transforma em interna – pessoal. Por exemplo, se fico com raiva do meu pai e sinto desejo de matá-lo, eu mesmo me censuro por isso, e reprimo o desejo para o inconsciente.

Passamos então a ter um mundo interior dividido: uma parte dos nossos desejos se esconde de nós mesmos, porque os consideramos inaceitáveis. Tudo isso é fruto de uma “domesticação” que o homem teve de impor a si mesmo para viver em sociedades complexas. Os impulsos agressivos estão entre os que mais tiveram de ser reprimidos, do contrário a violência seria causadora da desagregação do grupo.

Sabemos, por experiência própria, que o processo de repressão da agressividade não é perfeito. Sabemos também que boa parte dos nossos desejos violentos são conscientes – ou seja, aceitamo-los, mas não os exercemos, seja por medo, seja por não os acharmos adequados. E mais: vez por outra, eles vencem as barreiras internas e se exercem sob forma de agressões físicas ou verbais. Em algumas pessoas, o controle agressivo se dá de modo mais eficaz; em outras, é bastante precário.

A verdadeira história da evolução da nossa espécie e a passagem de um modo de vida primitivo, nômade, para as organizações sociais complexas em que vivemos hoje ainda estão longe de ser conhecidas.

Os fenômenos amorosos foram se tornando mais fortes e mais importantes só de alguns séculos para cá É provável que, no passado, as pessoas permanecessem vinculadas a seus parentes – pais, irmãos, tios, primos etc – de forma tão intensa que sentiam pouca necessidade de aconchego por meio de ligação com uma pessoa que não fizesse parte do grupo familiar. Essa ligação também existia, mas era escolhida pelas famílias, de acordo com as regras de conveniência de cada sociedade. Ou seja, as pessoas se casavam com criaturas que eram escolhidas por outras pessoas, e é provável que, com o tempo, se afeiçoassem a elas e, inclusive, passassem a sentir amor por elas.

Qualquer tipo de encantamento amoroso que surgisse fora das regras da vida social era violentamente reprimido. Isso só mudou nas últimas décadas: agora as pessoas podem se unir ao parceiro que quiserem, e se separar daquele por quem não têm mais interesse.

As histórias dos amores impossíveis, que estavam em oposição às regras, povoam nossas bibliotecas, sendo a mais famosa a de Romeu e Julieta, de Shakespeare. A luta é travada entre a emoção querendo se impor e a regra social querendo prevalecer e indo contra aquela união que a contraria. Esse tipo de repressão é hoje coisa do passado, apesar de ainda existirem alguns resíduos em certos grupos sociais. Pessoas casadas que se apaixonam por outras pessoas, por exemplo, podem se divorciar para realizar seu desejo romântico; ainda esbarram, porém, com fortes oposições, principalmente as de seus próprios filhos, que, não raro, se sentem prejudicados.

Nenhum dos impulsos humanos é mais difícil de ser “domesticado“ do que o instinto sexual. O amor necessita de um objeto definido, e a “domesticação” consiste no indivíduo não se fixar em um objeto proibido; já a nossa agressividade é sempre uma relação, ou seja, se a pessoa não for provocada, não tende a agir com violência. Dessa forma, as normas da vida em sociedade, quando respeitadas, geram quantidades pequenas – e, portanto, suportáveis – de provocação. Mas o desejo sexual está presente em nós o tempo todo! Não temos, como os outros mamíferos, um período de cio e outro de repouso desse instinto. Ao menos nos homens, o desejo se manifesta principalmente em função do estímulo visual: olhar moças e mulheres de todas as idades provoca o desejo dos homens de todas as idades, e em qualquer época do ano.

A repressão, quando muito forte, tira o desejo até da nossa consciência e cria, assim, uma outra parte da nossa subjetividade, que é chamada de inconsciente.

As mocas e as mulheres sabem que provocam o desejo dos homens e se excitam e se envaidecem com isso. Por essa razão, estão sempre querendo aprimorar cada vez mais a sua aparência física. Conseguem atingir os objetivos com facilidade, pois provocam cada vez mais o desejo dos homens. E vejam a complexidade da questão: quanto maior o grupo social, mais os homens estão expostos a mais mulheres que lhes são atraentes. Dessa forma, à medida que a civilização se sofistica e se expande, mais vezes por dia homens e mulheres se encontram e fazem surgir a faísca do desejo.

Já vimos, também, que o sexo, na sua origem, não tem relação com uma só figura, especial e única, como acontece com o amor. Dessa forma, somos estimulados sexualmente por praticamente todas as pessoas do sexo oposto. E isso acontece mesmo quando estamos sentimentalmente envolvidos e satisfeitos. A mulher enamorada não tem intenção de ter outros parceiros sexuais, além do amado. Porém, continua gostando muito de provocar o desejo de outros homens. Dessa maneira, é um pouco hipócrita quando diz que se veste e se arruma tanto só para agradar ao homem que ama. No caso dos homens, o desejo visual transborda muito claramente as fronteiras do amor. Concluímos, logo, que a fidelidade, quando existe, é fruto de uma regra que a pessoa se impôs, e não da natureza da nossa espécie.

Então para onde vai tanta energia que não pode se expressar, sob pena de desorganizar toda a vida em sociedade?

O DESTINO DO QUE É REPRIMIDO É A FANTASIA
Nossa razão é fantástica. Ela se ocupa de nos orientar nas coisas que dizem respeito à realidade que nos cerca; registra também as sensações, emoções e dores do nosso mundo interior e sobre elas nos orienta. Permite-nos perceber as outras pessoas e os seus direitos, e desperta-nos para uma reflexão moral, ou seja, faz-nos pensar até onde vão os nossos direitos e onde começam os direitos dos outros. A razão, depois de ponderar sobre todas essas questões – externas, internas e morais –, leva-nos às decisões e à ação. É o que me faz estar escrevendo este texto, e o que faz você lê-lo e tentar perceber a sua mensagem e eventual utilidade.

A razão humana tem se desenvolvido tanto, que a partir de um dado momento passamos a ser capazes de ir além da realidade que nos cerca. Passamos a ser capazes de processos que não refletem a descrição do que existe, mas inventam mundos irreais. Podemos, pois, criar histórias, situações, imagens e objetos que não existem a nossa volta. Passamos, então, a ter uma capacidade mental extremamente ampliada. É provável que essa capacidade de ir além daquilo que nos cerca tenha colaborado para as grandes descobertas que nos levaram à construção do mundo real que temos hoje. Sim, pois não é impossível que essas “invenções” sejam o embrião de coisas que, mais para adiante, venham a existir.

A capacidade de imaginar pode colaborar também para aliviarmos tensões interiores. É o que acontece, por exemplo, durante o sono, com muitos dos nossos sonhos. Se estamos com fome, sonhamos que estamos nos deleitando com um banquete. Se estamos com sede, nos vemos sob uma fonte de água cristalina. Assim, equilibramos a situação por mais algum tempo, de modo que o sono não precise ser interrompido. Essa é uma das características dos nossos sonhos: a realização de desejos dos quais estamos sendo privados. É evidente que, em certas fases da vida, os sonhos terão natureza sexual; e terão exatamente o mesmo significado: a realização de desejos dos quais estamos carentes. Os sonhos podem ser tão reais que conduzam à ejaculação, nos homens, ou ao orgasmo, nas mulheres.

As tensões, especialmente as de natureza sexual, não se manifestam apenas durante as horas de sono. Desejos fortes podem nos perseguir durante o dia e provocar tensões, pois nem sempre podemos realizá-los. Então “construímos sonhos” enquanto estamos acordados. São as nossas fantasias ou devaneios. E qual é o conteúdo das nossas fantasias eróticas? Elas correspondem aos desejos que temos e não podemos realizar. O impedimento, na realidade, deriva das regras sociais, que hoje em dia estão se afrouxando. Porém, outros ingredientes continuarão a existir. É o caso, por exemplo, de um rapaz que sente forte desejo por uma moça que não está interessada nele. Só poderá, portanto, satisfazer seus impulsos em relação a ela com fantasias eróticas, que, como regra, acompanham as experiências da masturbação.

A razão humana tem se desenvolvido tanto, que a partir de um dado momento passamos a ser capazes de ir além da realidade que nos cerca.

O mundo da nossa imaginação é fantástico e ilimitado. Pode ser que, numa primeira fase da adolescência, as fantasias eróticas correspondam apenas à “realização” de vivências que não poderiam se dar na realidade. Porém, a partir de certo momento, o imaginário sexual ganha vida própria e passa a percorrer territórios que transbordam os limites das nossas frustrações pessoais. O sexo tem essa peculiaridade de provocar uma inquietação agradável – e que por ser agradável é buscada ativamente. Pensar no assunto, se excitar, é coisa gostosa. Nessas horas a fantasia corre solta, de modo que os rapazes podem imaginar-se assediados por mulheres lindíssimas – o que não costuma ocorrer na realidade –, todas ansiosas por terintimidades com eles, sedentas de desejo por eles etc. As mocas podem se imaginar num palco, fazendo strip-tease, deixando todos aqueles homens boquiabertos, dispostos a qualquer sacrifício para terem acesso aos seus “favores” sexuais!

Pronto, está aberta a rota que leva a fantasia sexual, que realiza desejos frustrados, para um domínio muito mais amplo e rico da nossa vida interior. Está aberta a rota que fará da sexualidade um dos ingredientes principais da nossa criatividade e das nossas funções intelectuais em geral.

ARTE, EROTISMO E PORNOGRAFIA
O sexo, assim como a reflexão sobre suas peculiaridades, é como lá dissemos, agradável, e a excitação é gratificante por si. Exercer a imaginação e criar fantasias acerca de todas as possibilidades sexuais é uma das sensações buscadas pelos nossos devaneios, nossos “sonhos enquanto acordados”. Não creio que seja correto pensarmos, como supôs Freud, que a inspiração para as artes se origina sempre desse caminho. Porém, não há a menor dúvida de que esse é um dos ingredientes da produção artística, ao menos no que diz respeito ã pintura e à escultura. Os nus de vários pintores em todas as épocas contam entre as mais famosas obras que lotam os museus. O mesmo acontece com as esculturas: são muito comuns os nus, tanto de figuras masculinas como de femininas.

Na poesia e na literatura em geral, assim como na música, as questões do amor ocupam espaços importantes. Amores fracassados, as impossibilidades para sua realização, as traições e abandonos fazem parte integrante dos textos clássicos de todos os povos. Há, de todo modo, o processo da sublimação, em que se criam obras superiores a partir de processos instintivos grosseiros. A arte é isso e mais algumas coisas ligadas à criatividade, cujo processo íntimo ainda não pudemos conhecer.

Quando essa produção de fantasias sexuais sob a for ma de desenhos, fotografias, filmes. livros etc. tem por objetivo provocar diretamente a excitação, dizemos que se trata do exercício do erotismo. O erotismo seria parte do mesmo caminho das artes, só que menos sofisticado, menos sublime. E por isso que a escritora norte-amencana Camille Paglia afirma que o erotismo é uma forma de arte popular. Ou seja, arte para o público em geral, para os que não são capazes de se emocionar ou se excitar com as obras dos grandes pintores, escultores e escritores É bem verdade também que as pessoas que amam as artes mais sofisticadas não deixam de apreciar as produções eróticas, e de se excitar com elas, que são a materialização de nossas fantasias sexuais e têm um apelo mais geral.

Exercer a imaginação e criar fantasias acerca de todas as possibilidades sexuais é uma das sensações buscadas pelos nossos “sonhos enquanto acordados”

A produção erótica é muito farta nos tempos atuais. Não é raro que um jovem tenha acesso, por exemplo, a filmes eróticos, antes mesmo de ter tido tempo de fantasiar, por si só, todas as questões relativas à sua sexualidade Ele encontra essas fantasias prontas, já filmadas, nesse material a que tem acesso fácil. Nesse caso pode acontecer o contrário, ou seja, as suas fantasias eróticas podem ser influenciadas pelos filmes a que assistiu. O mesmo ocorre com a prática sexual: ela também pode ser influenciada pelos filmes que as pessoas assistem. Não há como negar que, nos tempos atuais, esses filmes eróticos são importantes “mestres” e “guias” para o aprendizado de como deverá o jovem se comportar na “hora H” da intimidade física.

Costuma-se chamar de erotismo à produção de melhor qualidade, em que textos e filmes buscam, além de provocar a excitação sexual, algum tipo de requinte artístico ou intelectual. Chama-se de pornografia a produção totalmente desprovida de outros objetivos que não sejam o de provocar excitação sexual, cujo intuito comercial é indiscutível. Segundo acredito, entretanto, não há uma fronteira delimitada e clara entre as duas coisas, que me parecem uma só. Acho que a palavra “erótico” soa aos nossos ouvidos de maneira mais amena, ao passo que ‘pornografia” soa de maneira mais vil, mais baixa. Porém, é apenas uma questão de conotações que damos às palavras. e que nem sempre têm relação com os fatos.

PORNOGRAFIA E SOCIEDADE
Uma das características da produção erótica ou pornográfica é que ela trata claramente o sexo fora dos limites do amor. Espero ter conseguido demonstrar que sexo e amor são coisas bastante distintas, que existe amor sem sexo – amor entre pais e filhos, por exemplo –, do mesmo modo que existe sexo sem amor, além, é claro, da união do sexo com o amor, como acontece em relações afetivas entre pessoas adultas.

O amor é um impulso forte, relacionado com nossas primeiras experiências como seres vivos, quando ainda estávamos grudados em nossas mães. Sobra uma nostalgia dessa simbiose, e o desejo de refazê-la com figuras especiais com as quais cruzamos ao longo da vida adulta. Já o sexo é impulso instintivo que não tem um objeto de desejo tão definido como no caso do amor, sendo, por causa disso, difícil de ser “domesticado” e bastante anarquista por natureza.

A vida real nos mostra que os que pregam o recato e a ponderação nem sempre usam esse padrão de conduta em suas vidas pessoais.

É muito importante que se perceba que o sexo é processo isolado do amor tanto nos homens como nas mulheres. Nossa cultura sempre reconheceu a sexualidade masculina como independente do amor. Agora, para as mulheres, sempre foi dito que o sexo anda junto com o amor. Apesar da complexidade da questão, acho que se pode afirmar que essa associação forte proposta às mulheres estava a serviço de reprimir-lhes o exercício da plena e livre sexualidade. Até há bem pouco tempo, as mulheres não gostavam sequer de assistir aos filmes pornográficos que sempre agradaram muito aos homens. Hoje, constatamos que a produção erótica de todo o tipo conta com um crescente número de adeptas, que, ao menos em fantasia, se deleitam com a possibilidade do sexo livre do amor.

A posição de uma sociedade como a nossa em relação à pornografia é contraditória, como acontece em relação a tantos outros assuntos importantes. É como se vivêssemos submetidos a dois códigos de valores ao mesmo tempo. Um nos diz para sermos comedidos, ponderados, recatados, honestos, dignos. O outro nos ensina que as pessoas bem-sucedidas têm de ser espertas, levar vantagem sobre as outras, ser exageradas, não tão recatadas e ter honestidade relativa. Os dois códigos nos chegam diariamente por vários meios de comunicação. No cinema, há personagens dos dois tipos; o mesmo ocorre nas novelas, nas quais nem sempre o galã se governa pelo código mais rigoroso. E a vida real nos mostra que os que pregam o recato e a ponderação nem sempre usam esse padrão de conduta em suas vidas pessoais.

É muito importante que se perceba que o sexo é processo isolado do amor tanto nos homens como nas mulheres.

Oficialmente, a pornografia é vista como inadequada, estimuladora de maus hábitos sexuais, justamente porque não vincula o sexo ao amor. Além do mais, a produção erótica não estabelece limites entre o que se deve e o que não se deve fazer nas relações íntimas, o que ainda ofende os princípios de um bom grupo de pessoas. Apesar disso, a indústria pornográfica vai indo muito bem, e o número de pessoas que gostam de se entreter com esse tipo de filme, livro, novela etc. é crescente. Ainda hoje, entretanto, o preconceito contra a pornografia é maior quando se trata do sexo feminino. Ou seja, os pais se incomodam muito pouco se seu filho estiver assistindo a filmes eróticos. Porém, se for a filha…

Se olharmos o fenômeno por outro ângulo, poderemos ver um aspecto interessante que, em geral, não é citado. A produção pornográfica pode estar a serviço de uma atitude conservadora, a serviço de preservar as relações afetivas e familiares, a serviço da monogamia. Como? Já disse que as fantasias são um dos caminhos para o esvaziamento da energia sexual, que, em nossa espécie, é bastante intensa. À medida que os indivíduos e também os casais lançam mão dos recursos produzidos pela indústria do erotismo, encontram, via imaginação, uma saída para os desejos sexuais que transbordam os limites das relações afetivas que desejam preservar. A pornografia pode ajudar as pessoas a reduzir a energia sexual sem ter de recorrer a ações práticas que possam ameaçar os vínculos afetivas e conjugais.

ALGUMAS REFLEXÕES DE ORDEM MORAL
É evidente que se pode também pensar pela rota mais usual e ponderar que a pornografia pode estar estimulando nossos apetites sexuais par a além do razoável. E mais que junto com este eventual aumento do erotismo, estaria sendo libertada também energia agressiva, ou seja, que a pornografia estimular ia também a delinqüência, a criminalidade de todo tipo e. principalmente os crimes de natureza sexual, como é o caso do estupro.

Essa duvida vem sendo desfeita por meio da análise e observação dos fatos. A verdade é que nunca se conseguiu provar que a pornografia tivesse algum tipo de responsabilidade no aumento ou na diminuição de qualquer crime Mesmo assim, os argumentos dessa natureza têm sido usados por pessoas denominadas moralistas que consideram esse um bom motivo pata ser contra as fantasias eróticas e sua expressão prática.

É difícil pensarmos sobre moral quando estamos refletindo sobre um único indivíduo. Essa questão é essencial quando existe algum tipo de prejuízo imposto indevidamente a outra pessoa. Se não houver prejudicados, como no caso da pornografia, não poderemos falar em atos criminosos ou imorais. Poderíamos pensar sobre a moral de um modo mais restrito, ligado apenas à saúde física e mental. Por esse raciocínio, seria imoral tudo aquilo que pudesse ser prejudicial para a própria pessoa, e moral aquilo que lhe fosse benéfico ou inofensivo. O uso de drogas, por exemplo, poderia ser considerado imoral, por causar dano às pessoas que fazem uso delas. As drogas ainda envolvem a questão moral no sentido mais amplo, já comentado, pois existem traficantes que induzem jovens ao seu uso, provocando-lhes óbvios prejuízos.

Ainda do ponto de vista da saúde física e mental, nada se pode falar contra a pornografia, que apenas materializa fantasias eróticas que as pessoas teriam de qualquer modo. Elas ativam as práticas sexuais ou são o alimento para a masturbação, e já vai longe o tempo em que os médicos tinham alguma dúvida a respeito de eventuais malefícios da masturbação. Hoje sabemos que ela tem até mesmo um efeito benéfico, relaxando tensões e facilitando a indução do sono, principalmente nos homens. A verdade é que são muitas as pessoas que vêem no sexo uma importante forma de prazer, e estão dispostas a ativá-la ao máximo. Para estas, o material erótico que a indústria produz é uma coisa boa, pois permite que o sexo se exerça mais no domínio da fantasia, o que pode ser vivido com mais segurança, inclusive sem os riscos de adquirir doenças sexualmente transmissíveis. Para aquelas pessoas que preferirem uma vida mais “recatada”, basta que se abstenha de procurar esse tipo de estímulo.

A verdade é que nunca se conseguiu provar que a pornografia tivesse algum tipo de responsabilidade no aumento ou na diminuição de qualquer crime.

Um outro ângulo da reflexão moral pode ser encaminhado na análise do que seriam as manifestações naturais da nossa sexualidade. Assim, o que é natural é moral, e o que é antinatural é imoral. Aí, então, a questão se complica de vez. Sim, pois uma das práticas sexuais mais comuns é a da homossexualidade, o que seria antinatural e, portanto, imoral. A verdade é que não sabemos se a homossexualidade é, de fato, antinatural. Freud, por exemplo, achava que todos nós nascemos com predisposição para práticas homo e heterossexuais, de modo que, de seu ponto de vista, a homossexualidade não seria antinatural.

Acho melhor continuarmos a respeitar apenas o princípio mais geral da moral, segundo o qual há dano – por isso sendo conduta imoral – quando alguma pessoa se prejudica em virtude de atos de terceiros, ou é obrigada a fazer coisas contra sua vontade. Se o ato for inofensivo e de consentimento mútuo, tudo bem. Desse ponto de vista, até mesmo alguns exageros provenientes da associação do sexo com a agressividade, própria do comportamento denominado sadomasoquista, podem ser tolerados, pois são fantasias comuns a muitas pessoas e. na prática, só se dão por consentimento recíproco. Seria imoral o material pornográfico mostrando o estupro, por exemplo, da mesma forma que é lamentável o uso de crianças em algumas revistas eróticas – crianças não têm condição de consentir ou não. Porém, felizmente, não é o que predomina. No material pornográfico existente, geralmente todo mundo está superfeliz, fazendo sexo por prazer, parecido com as brincadeiras sexuais infantis; tudo é alegre e descompromissado, o que nem sempre ocorre na vida real.

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  • andre quimico

    O novo site está ficando ótimo !