Sobre idéias e fatos

Sei muito bem que as idéias são essenciais para que o mundo evolua. Os fatos que aí estão – objetos, formas de estrutura social, relações empresariais e familiares etc. – um dia foram idéias nas cabeças das pessoas. As idéias são abstrações que antecedem os fatos novos. Elas são inspiradas nos fatos que existem e a partir deles imaginamos algo que pudesse substituí-los com alguma vantagem. Um exemplo banal: tínhamos um isqueiro antigo, daqueles cuja combustão se fazia por fluido tipo gasolina; de repente imaginamos um outro a gás e ainda por cima suficientemente simples para poder ser descartável. Ou seja, partimos de um isqueiro real; depois temos uma idéia a respeito de um outro que poderia ser mais eficiente do que ele; a terceira fase consiste em tentar transforma-la em uma nova realidade, um novo isqueiro. A idéia intermediou a transição de uma realidade pior para outra melhor.

É assim que vejo a grande utilidade das idéias: elas têm que nos ajudar a avançar no plano da realidade e não substituir o real por hipóteses ou sonhos. O problema é que a passagem de uma realidade pior para outra melhor, sempre intermediada por alguma idéia nova que se inspira na antiga realidade, por vezes esbarra em grandes dificuldades. Isso é particularmente verdadeiro quando estamos nos referindo a assuntos humanos. Ou seja, quando as novas idéias implicam em alterações nas formas tradicionais que envolvem a forma como temos vivido. Um exemplo dentre tantos: os relacionamentos amorosos sempre foram fundados em diferenças de temperamento. A realidade era baseada na tese de que a boa relação era complementar. As idéias defendiam esta mesma realidade. De repente surge uma outra idéia que mostra que as boas relações são mesmo as que se estabelecem entre pessoas parecidas. A nova idéia nos convence e aí temos que tentar atualizar nossa vida. Isso pode implicar em termos que nos separar, buscar novos parceiros, esbarrar com dificuldades relacionadas com um desejo sexual menos intenso, superar as dificuldades relacionadas com o medo da felicidade etc.

Muitas pessoas não se vêem com forças para todas estas “atualizações” de suas vidas práticas. Passam a defender idéias diferentes daquelas que praticam. Ou então passam a ser contra idéias apenas para se defender de suas dificuldades. De todo o modo, as idéias passam a não preencher sua função de ajudar a modificar a realidade. Elas se transformam em palavras vazias. Outro exemplo: aprendemos que o verdadeiro orgasmo feminino é essencialmente relacionado com a estimulação do clitóris. Muitas mulheres reconhecem que isso é verdadeiro, mas não querem dizer isso a seus parceiros por medo de magoá-los, já que eles parecem não aceitar este novo modo de ver a relação sexual. Passam a fingir um orgasmo vaginal que não existe e com isso confirmam uma hipótese equivocada dos homens que pedem cada vez mais este tipo de resposta.

Isso sem falar daquelas idéias totalmente idealizadas, que tratam da possibilidade de reabilitar delinqüentes dando a eles bastante amor. Ou então que seremos capazes de construir uma sociedade mais justa baseada nos ideais humanitários dos intelectuais e das pessoas bem intencionadas. Que o bem acabará por vencer o mal. Belas idéias, todas elas falsas, porque inviáveis. A idéia é falsa quando ela não corresponde aos fatos e não irá jamais corresponder a eles. Elas servem para apaziguar a consciência de algumas pessoas que, ao defendê-las, se sentem com o direito de continuar a usufruir dos privilégios que sempre tiveram – o exemplo maior é o do milionário que defende o socialismo, mas que continua a viver sua vida de nababo. A verdade é que uma pessoa que acredita numa ordem social mais justa pode viver de uma forma compatível com suas idéias desde já. Ninguém é obrigado a viver num palácio só porque tem dinheiro para isso. Pode muito bem viver num pequeno apartamento de classe média e doar o dinheiro para uma instituição política que defenda os direitos dos menos favorecidos. Ou então fazer doações para hospitais, universidades etc.

Quem acredita em suas idéias, tem o dever de viver de acordo com elas. Os religiosos e crentes não podem ter amantes. O verdadeiro intelectual não pode sabotar alguém que detenha um saber maior já que seu compromisso maior tem que ser com a verdade e não com sua vaidade pessoal. E assim por diante. Se vivermos de acordo com nossas idéias, as idéias deixarão de ser idéias e passarão a ser fatos. Se não acontecer isso e continuamos a viver de um jeito A e a defender idéias B, estamos diante de um blá, blá, blá infrutífero, vago, inútil e que só pode estar a serviço de apaziguar sentimentos de vergonha ou culpa de pessoas intelectualmente pouco honestas.

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