Todo mundo tem um lado bom?

Por em 25/07/2016

Ao refletir mais vagarosamente sobre algumas frases de uso corrente, não é raro que nos deparemos com textos que parecem estar, mais que tudo, a serviço de nos provocar enganos. Uma dessas frases é a que dá título a esse texto. A ideia de que, no fundo, aquelas pessoas um tanto cruéis e agressivas tenham um “coração de ouro” que, vez por outra, se manifesta sempre me indignou. Penso que o que acontece no fundo das pessoas é muito relevante. Porém, mais relevante ainda é o comportamento delas no dia a dia.

O aspecto mais grave da expressão “todo o mundo tem um lado bom” é que ela, como grande regra, é verdadeira. Aí reside o perigo: acaba colocando todos os seres humanos num só grupo, desconsiderando diferenças que considero fundamentais. Elas dizem respeito ao aspecto quantitativo e também ao comportamento cotidiano de cada um de nós. Ainda que seja incomum a pureza tanto da bondade como da maldade, existem enormes diferenças entre as pessoas predominantemente boas e aquelas predominantemente más. E a frase generalizadora desconsidera esse fato, condição que favorece, como costuma acontecer, aquelas cuja conduta ética é mais duvidosa.

Talvez seja razoável pensarmos que uma boa metade da população tem comportamento cotidiano predominantemente bom: são os que se preocupam com a dor dos outros, que cuidam daqueles a quem amam, que são tão ou mais exigentes consigo mesmos do que com terceiros e a condescendência com terceiros faz, por exemplo, com que concordem com a ideia de que existe um lado bom em todos. É claro que essas pessoas periodicamente se irritam e reagem com rigor indevido a situações que usualmente não os desequilibram; isso acontece porque estão particularmente cansadas, porque ingeriram umas doses a mais de álcool, não dormiram bem na noite anterior, no caso de um bom número de mulheres em virtude de estarem no período pré-menstrual etc.

A outra metade das pessoas, talvez por serem menos tolerantes a frustrações e contrariedades, reagem de modo grosseiro com enorme frequência, reclamam por mais atenção, parecem estar sempre insatisfeitas e transmitem, para os que convivem com elas, a impressão de que todos estão lhes devendo alguma coisa a mais. Não sentem culpa quando magoam terceiros, se preocupam muito pouco com o bem-estar dos que as cercam, sempre priorizando a si mesmas. É fato que, em determinadas circunstâncias, podem agir de modo extremamente generoso; isso pode acontecer em função de sentirem pena de alguém que esteja em uma condição bem inferior à sua e aí se sentem confortáveis em ajudar e cuidar. Não é raro que ajam dessa maneira também com aquelas pessoas que usualmente maltratam por força da inveja – que desaparece quando o invejado está mal e por baixo.

Em certas circunstâncias especiais aqueles que, no dia a dia, agem de forma grosseira e desconsiderada, se mostram prestativos e dedicados. Isso é bastante mais comum em contextos sociais, ou seja, quando mais pessoas estiverem acompanhando os acontecimentos; um exemplo é a dedicação de alguém essencialmente egoísta a um parente doente internado num hospital: por ali passarão todos os conhecidos, de modo que poderão admirar sua bondade. Os da primeira metade são igualmente dedicados entre as paredes das casas, longe da observação de terceiros; isso porque respondem a valores internos e estão menos preocupados com as aparências do que os que mostram o seu lado bom sempre que haja plateia.

Umas poucas pessoas, talvez 1% da população, não têm compaixão, não se preocupam em demonstrar bondade nem mesmo em situações sociais, não sentem qualquer tipo de medo de represálias, de modo que parecem ser portadoras exclusivamente de interesses pessoais e a maldade pode se exercer com enorme facilidade sempre que se sentirem contrariadas. Pequenas adversidades poderão desencadear reações brutais. Esses são os antissociais, os psicopatas e penso que não têm nem uma gota de bondade em seu sangue. A recíproca também é verdadeira: talvez 1% dos homens não se rendem e não abrem mão de seus valores e convicções nem mesmo nas mais adversas condições. Renunciam aos interesses pessoais e vivem em nome das causas que abraçaram, sejam elas de natureza política ou religiosa. Não cedem a pressões nem mesmo diante da morte iminente. São os santos e mártires, pessoas que parecem não ter um só osso maldoso.

O fato de 98% dos humanos terem condutas, por vezes, cuidadosas e dedicadas e, em outras ocasiões, agirem de modo grosseiro e agressivo não significa, se estiver certa minha argumentação, de que somos todos “farinha do mesmo saco”. As diferenças são marcantes e devem ser enfatizadas para o bem da evolução moral da nossa espécie.

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